Capítulo 17 - A denuncia

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O olhar daquela miúda começava a dar-me realmente arrepios, o seu sorriso igualmente, era incapaz de escutar a conversa que tinha ao telemóvel, porém podia afirmar com quase todas as certezas que eu era o tema e tal assustava-me, confesso.

- Ah, esqueçam, mal a conheço! - exclamei esboçando um sorriso forçado, fitando as três num esforço quase desesperado de as convencer das palavras que proferia.

- Hmm está bem, também não há de ser nada! - concordou Sadie.

Momentos depois o toque soou dando inicio a um longo dia de secantes aulas, pelo menos já não fiquei sozinha nos intervalos, a Sophia, a Millie e a Sadie eram decididamente as primeiras boas surpresas que tive nesta escola.

No final do dia, perto das cinco da tarde eu e a Millie saímos juntas, pois as nossas salas situavam-se frente a frente, combinara de ir ter com o Curran a casa dele, desta vez com o consentimento da minha mãe, a única pessoa a quem contara tudo o que até agora se passara, afinal, por mais próximas que eu e a Sage sejamos, não a quis que fosse mais uma a esconder algo ao meu pai, pois era o único a quem não tinha a menor coragem de contar o que quer que fosse, era a primeira vez que gostava de alguém, era a primeira vez que me envolvia com alguém e para melhorar, com um rapaz maior de idade... 

- Hey Teagan, está ali uma senhora a chamar-te? Não é a tua mãe? - indagou a que me acompanhara, trazendo-me de volta à terra.

- Ah sim, sim, é! - respondi caminhando em passos acelerados na direção do carro - Adeus, até amanhã! 

- Adeus!!

Confusa coloquei a mochila nos bancos vazios de trás após me sentar ao lado da minha mãe que por alguma razão trocara o sorriso com que fitava o mundo lá fora, por uma expressão séria, preocupada de certo modo.

- Está tudo bem? Pensei que ia a pé para casa do...

- Nós vamos para casa. - cortou, friamente voltando a ligar o carro que conduzia em silêncio deixando-me perdida num vazio de mil e um pensamentos, misturados com um gigantesco mau pressentimento.

- O que é que se passou...? - arrisquei-me a perguntar, trémula.

- Devias ter contado ao teu pai, devias ter sido tu a contar... - balbuciou de olhos lacrimejantes, aterrorizando-me cada vez mais.

- O quê?? Tu contaste? Alguém contou?? - exclamava, numa pilha de nervos muito maior que eu.

- Ele descobriu filha...- murmurou mal chegámos, naquele exato momento, por aquele especifico tom de voz, senti que o mundo me caíra aos pés - O Curran recebeu uma denuncia por pedofilia, com direito a fotos de beijos entre ele e uma certa adolescente de 16 anos. Julgo que saibas de quem falo, não?

Ontem, aquele barulho, estava realmente alguém a observar-nos, alguém...

- Não, mãe, por favor, diz-me que estás a mentir, imploro-te... - soluçava andando de um lado para outro freneticamente - Não pode, não pode ser verdade...

- Anda, o melhor é arcares com as consequências de uma vez, pode ser que, que o teu pai te escute, mais do que a mim, pelo menos mais do que a mim... - sugeriu estendendo-me a mão.

Cabisbaixa respirei fundo, pronta para o que se seguiria, para os gritos, para o terramoto que sucederia nas nossas vidas.

Era impossível encontrar-me mais correta, houveram até segundos em que a casa parecia desabar sobre as nossas cabeças, não havia palavras que dissesse que o fizessem mudar de ideias, eu era uma vítima, uma ingénua, quase uma burra e a minha mãe uma mentirosa sem qualquer tipo de inteligência pois deixou a filha cair nas garras de um pedófilo... É quase inacreditável como uma história mal contada é de tal modo capaz de distorcer de tão brusca forma a realidade.

- Vamos à esquadra agora e vais confirmar tudo! - era a minha oportunidade.

- Se me levares lá não confirmo uma única palavra do que foi dito nessa maldita queixa! - vociferei - Jamais colocaria atrás das grades o homem que amo, a razão de ainda estar viva, devias ser-lhe no mínimo grato, pai!

- Grato? GRATO?! Eu grato ao homem que anda a abusar da minha filha?! 

- Grato ao homem que salvou a tua filha!! - isto ele não escutava...

- Mete-te no carro agora! - ordenou.

- Eu vou, só não te garanto que diga o que tanto desejas ouvir. - respondi pegando unicamente no meu telemóvel antes de sair porta fora num pranto.

Almejava imensamente dar uma mínima explicação à Sage, tenho a certeza que por mais que tenha ido com a Aubrey para o quarto, aquela confusão foi provavelmente escutada por toda a vizinhança, quem me dera ter forças para pelo menos ter defendido a minha mãe, contudo, a esta altura, não tinha forças para nada, entrei de rompante no carro onde desabei em lágrimas, ligando vezes sem conta ao Cur, não obtendo qualquer tipo de resposta...

- Por favor... - pedia sussurrando de olhos postos no ecrã - Por favor atende...

Como era obvio, nada ocorria e minutos depois , o meu pai surgiu, portanto limitei-me a secar as lágrimas e fechar-me no mais profundo dos silêncios. 

O mundo trouxe-me até tiOnde histórias criam vida. Descubra agora