Capítulo 7

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Mirella

Acordei com o bilhete na cabeceira:

“Você está de folga hoje. Fica aqui se quiser. Não precisa ir embora.
— A.”

O papel ainda tinha o cheiro dele. Meu peito apertou de um jeito bom e ruim ao mesmo tempo. Peguei minhas coisas e chamei um Uber. Cheguei em casa e dei de cara com Luísa transando no sofá — um loiro puxando o cabelo dela, o móvel arrastando no chão. Tranquei a porta do quarto rápido e me joguei na cama.

Dormi pesado, como quem desliga o mundo.
Acordei já no almoço. Tomei banho rápido, vesti uma roupa simples, bolsa preta de ombro, e fui pro escritório. Entrei pedindo pra falar com Aron. A recepcionista me deixou subir. O elevador abriu e… silêncio absoluto. Minha mesa vazia. A dele vazia. O “click-clack” dos meus saltos ecoou como se eu estivesse sozinha no prédio inteiro.

Sentei na cadeira dele, brinquei com a caneta, abri gavetas sem saber direito o que procurava. Na última, no fundo, minha mão tocou algo fino. Puxei.
Um teste de gravidez. Positivo.
Meu coração parou. Guardei de volta, tremendo. Levantei os olhos e vi a prateleira à frente: uma pistola preta, brilhando como se fosse só decoração. Meu estômago revirou. Que lado dele eu não conhecia? Que segredos ele guardava ali, bem na minha frente?

— Mirella? O que houve?

Aron estava na porta, terno impecável, mas olhos cansados, como se tivesse passado a noite em claro.

— Nada. Vim fazer uma visita. Já estou de saída.
Ele se aproximou devagar, me encostou na parede com o corpo inteiro. A mão dele subiu pro meu rosto, polegar traçando minha bochecha devagar.

— Você está branca. O que viu?

— Nada. Desculpa. Vou fazer compras.

Saí correndo. Fui direto pra praia, sentei na areia, vento batendo no rosto. Meu cérebro não parava: Um filho? Com quem? Por que ele guarda isso na gaveta como se fosse um segredo sujo? Ele me ama? Ou eu sou só a distração enquanto ele resolve a vida dele?
Voltei pra casa, acendi um cigarro na janela. A fumaça subia enquanto eu me perguntava: Eu o amo? Ou estou me sabotando porque sei que isso não pode durar?

— Para… — falei sozinha. — Chega.

Apaguei o cigarro e dormi, devaneando no caos.
Acordei de madrugada com o celular vibrando. Uma mensagem dele:

● Porta.

Abri de sutiã mesmo. Aron estava lá, olhos vermelhos, chorando como se o mundo tivesse acabado.

— O que você está fazendo aqui?

Ele entrou, voz quebrada:

— Você. Seu cheiro. Não quero nada sexual. Só trouxe vinho. Vamos pro seu quarto. Vamos ser só nós hoje. Por favor.

— Entra logo.

Fomos pro quarto. Ele se sentou na cama, abriu a garrafa, serviu duas taças. Me puxou pro colo dele, abraçando forte, como se eu fosse desaparecer se soltasse.

— Deita e me explica o que está acontecendo — pedi, voz baixa.

— Não posso. Não consigo. — Ele tomou um gole grande, depois encostou a testa na minha.

Senhor Aron Onde histórias criam vida. Descubra agora