Era um garoto sonhador, aventureiro,
saia junto com o primo para brincar de caçar grilos e enfrentar as aventuras do caminho.
Naquele dia nada estava normal, encontramos uma mala preta, daquelas executivas.
Cá pra nós, o que um menino cheio de imaginação vivendo em uma das favelas mais perigosas de são Paulo poderia fazer?
Mentir!
Menti para meu primo que chegou depois, e ele mentiu comigo.
Dissemos um para o outro que aquela mala continha espaços para guardar armas e bombas,
nós precisávamos salvar a todos.
Jogamos a mala no córrego.
O mesmo córrego que olhavamos e sentíamos o cheiro no almoço feliz de domingo.
Subimos o morro correndo,
era tão íngreme que tínhamos que subir quase que escalando.
Que aventura!
Chegando no topo o susto.
Foi como um sopro que nos fez descer escorregando no barro.
Diversos carros de polícia e drogas espalhadas pelo chão,
lembro até hoje daquela sensação.
Mas o dia estava incrível de mais para acabar.
Mais tarde decidimos ir pra casa,
o barraco furado de bala onde a gente morava.
Subindo as escadas começou a troca de tiro corriqueira,
meu primo que era maior correu e eu fiquei pra trás.
Meus tios tinham um cachorro enorme, parecia um monstro e eu travei.
Mas era só eu e o monstro,
ele não podia me vencer.
No meio da troca de tiros descobri um grande poder,
usado a séculos pela humanidade,
a mentira bem elaborada.
Esse poder faz até um homem pai de família morar em um buraco e chamar de casa.
Eu fiquei travado na frente do cachorro enquanto os tiros passavam por mim.
minha tia veio me buscar, segurou o cachorro e eu consegui passar.
Então deitados no chão,
ouvindo os tiros furarem o barraco feito papelão,
eu pensava no dia seguinte,
indo para escola quantos corpos teria que pular.
— O que aconteceu que você não entrou menino.
Perguntou brava minha tia.
Branca dos olhos verdes, a verdadeira heroína daquele dia.
— O bandido parou na minha frente apontou a arma e perguntou se eu queria uma bala e eu disse que sim,
daí ele foi embora e me mandou entrar.
Contei isso tantas vezes, e a cada vez eu alterava mais,
uma arma prateada, um homem de capuz.
Foi a melhor história da minha vida.
Só eu sabia da verdade.
Ou, nada sabia de tudo aquilo que vivia.
Drogas, crimes tráfico, fome e violência.
Um menino não consegue viver muito tempo em um lugar assim sem mentir.
E você ja mentiu hoje?
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NAO ME ESCUTE
PoetryOnde santo e profano, vida e morte escorrem da mesma fonte. Uma leitura para quem não tem medo de mergulhar em seu interior. Você verá em cada texto um fragmento da sua escuridão e luminosidade. Você não pode esconder-se de si mesmo. Todavia, Não me...
