Capítulo 9

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"22 de agosto de 2021. 

Querido diário, 

Acho que essa é a primeira vez que escrevo em dias seguidos, mas preciso desabafar com alguém sobre o que estou sentindo. Estive pensando muito no sonho que tive com Nicholas, daquele dia idiota. E não consigo parar de pensar sobre o que aconteceu depois e isso me leva a pensar em outra coisa parecida. Meio confuso, eu sei. Vou narrar o que aconteceu: 

Não sei exatamente quando dormi, mas em algum momento isso aconteceu. Quando acordei já era de manhã e reinava um silêncio no apartamento. 

Tirei a cômoda da porta sem medo e a abri , desci as escadas de pijama mesmo. Não encontrei Nicholas no andar de baixo, ele provavelmente estava na faculdade. E então me lembrei que eu também deveria estar na faculdade. Droga! Havia me atrasado. Droga! Eu  sabia que não conseguia encarar todos aqueles colegas sem chorar. Droga! Onde estava Nicholas?! 

Achei um bilhete na ilha da cozinha, vou transcrever o que estava nele porque acabei decorando: 

"Me desculpe, desculpe, mil vezes desculpa. Não era minha intenção, você sabe como é difícil encontrar com minha mãe. Você sabe como é difícil ter sempre alguém me dizendo o que fazer. Eu não sei o que houve comigo ontem...me desculpa. Estou muito arrependido, tanto que nem consigo encará-la. Prometo que é a última vez. Vamos superar isso juntos." 

Lembro que me sentei no sofá com o bilhete nas mãos e me perguntei porquê ele havia colocado "essa é a última vez" e não "essa é a primeira e última vez". Naquele dia eu não soube a resposta e deixei de lado, mas hoje eu sei. 

Porque aquela não foi a primeira vez. 

Começou com um empurrão, recordo de ter caído e machucado o joelho e as bochechas, estávamos na rua à noite, depois de uma festa da faculdade. Eu não considerei importante porque estávamos nos divertindo antes da briga e ele foi a pessoa mais carinhosa do mundo, até me ajudou com os ferimentos. Tudo que pensei foi: "nossa, tenho um namorado fofo que se importa comigo". E não: "Uau, ele me empurrou." Ou mesmo: "Tenho certeza que foi desse jeito que começou com a minha mãe, não quero passar pelo mesmo que ela." 

E isso faz com que eu pense no meu pai, no quanto a vida dele tem sido depois que minha mãe deu um basta naquilo tudo. Ele é um vendedor de uma floricultura atualmente, e me manda flores sempre que pode, apesar de não ter mandado nos últimos seis meses. Acho que é um jeito dele se desculpar por minha mãe. Não que importe. Não costumo conversar muito com ele, não mais. Gosto do meu pai, como pai. Mas não gosto dele como ex-marido da minha mãe. Eu tinha apenas 10 anos quando eles se separaram, então não lembro de muita coisa. Mas o pouco que lembro já é o bastante. 

Foi difícil para minha mãe abandoná-lo, ela o amava. Acho que de um jeito ou de outro ele também a amava. Gostava de pensar que podíamos ter sido uma família feliz numa bela casa, em uma bela cidade. Hoje isso me deixa animada às vezes, me deixa deprimida a maior parte do tempo. Por isso evito pensar nessas coisas. Fico feliz por minha mãe ter encontrado alguém bom de verdade para ela, meu segundo pai foi exatamente o que imagino que meu pai poderia ter sido caso fosse diferente. Um lar feliz, numa casa feliz, numa cidade feliz. Ela é uma mulher que mereceu encontrar seu "felizes para sempre". 

Espero que um dia eu mereça o meu também. E que nele estejam inseridos meu restaurante, minha família e Sarah. Gosto de Sarah. Ela faz com que eu sinta que as coisas podem ser diferentes do que são e que um tesouro está à nossaespera no final do arco íris. Também gosto de pensar na recompensa depois da tempestade. Gosto de pensar em muitas coisas que não deveria. 

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