Pista de mão dupla

138 17 58
                                    

A semana havia se passado num ritmo cansativo e por vezes tedioso para Hyunjae. O humor do hacker oscilava bastante no tempo entre os bicos que arranjava, suas saídas com Sunwoo para jogar e comer porcaria, e o seu tempo inteiramente sozinho, que era esse o que mais permitia que seu ânimo se esgotasse. Nesses momentos, Hyunjae percebia com mais clareza que não gostava de ficar sozinho, e nunca se sentiu tão solitário desde que havia perdido seu último emprego por conta do acidente que levou seu braço. Tanta coisa mudou por causa de uma maldita barra de chumbo solta em uma das esteiras da fábrica… E ele não gostava de lembrar da dor, afinal quem gostaria? 

Mas aquele braço insensível de metal escuro era seu lembrete diário; se lembrava que não sentia mais a dor, mas também não podia sentir nada. Pelo menos aquela coisa não estava mais com defeito e podia se mover bem. Mesmo assim, Hyunjae queria cuidados, atenção para além apenas de seu corpo. Queria alguém que aparecesse em seu apartamento todo dia e conversasse, jogasse ou comesse com ele. Hyunjae sabia que Juyeon não podia ser essa pessoa, e talvez deixá-lo na mira de uma necessidade tão específica fosse algo perigoso a se fazer.

Hyunjae nem ao menos sabia que precisava daqueles momentos até que pôde vivê-los com Jacob. Agora se sentia um completo idiota e só ele, de todas as pessoas, estava ciênte dessa idiotisse. “Parabéns Hyunjae, você voltou a ter 16 anos!” Seu desgosto de si mesmo chegou a um ponto que voltou a usar seu cigarro eletrônico, algo que não fazia a alguns anos. Talvez ele precisasse extravasar mais que qualquer coisa, fugir mais uma vez daquele sentimento angustiante de paixão e nostalgia que sentia por conta de algo que ele não podia mais ter. Então escolheu ligar para Juyeon quando o sábado chegou (escolhendo também negligenciar todos os alertas emocionais sobre isso que teve de si mesmo durante a semana). 

O detetive falou que havia uma breve folga naquela noite de sábado, mas que no dia seguinte ele iria trabalhar novamente, então Hyunjae precisaria ir embora de seu apartamento. Não era problema algum, pois o hacker só queria esquecer de tudo que o estava perseguindo, nem que fosse por uma noite. 

Então, na hora combinada, ele bateu na porta do apartamento de Juyeon, esse que ficava um pouco mais próximo do centro da cidade que o seu. O detetive atendeu a porta, estava com uma camisa branca mais simples, desabotoada perto da gola. Apesar do aparente cansaço, Juyeon parecia mais “cuidado”, estava cheiroso e relaxado, parecia que até que tinha se dado o luxo de ficar um bom tempo no banho. E era verdade: com o dinheiro do adiantamento, Juyeon pôde pagar algumas contas atrasadas, comprar produtos para si mesmo que antes ele nem sequer colocava na lista do mercado. Ele também havia comprado vinho e pretendia abrir naquela noite.

Hyunjae entrou ali e logo os dois estavam sentados no balcão da cozinha, esvaziando aquela garrafa aos poucos, esperando que ela não simbolizasse qualquer intenção romântica. E no final, os dois realmente só pareciam dois jovens cansados a fim de encher a cara.

— Já pegou o assassino? — Indagou o hacker, novamente forçando algum assunto para acabar com o silêncio constrangedor que os perseguia. Já havia tentado desenrolar com os básicos “como foi sua semana” e “parece que hoje vai chover de novo”.

— Não peguei. Mas já tenho suspeitos.

— Quem são? — Hyunjae sorriu, provocando a paciência alheia com as sobrancelhas arqueadas. 

— Um deles é você — Juyeon brincou de volta, sentindo a ardência do vinho percorrer mais uma vez seu corpo enquanto continuava aquela conversa boba. O gosto de álcool barato o fez lembrar e pôr em contraste o licor caro que bebeu na casa da Sra. Choi; mas Hyunjae tomou sua atenção novamente, roubando seu olhar vago.

— Ah, mas se você me pegar… — O efeito do álcool também mexia com Hyunjae aos poucos, e ambos ali sabiam que a sua fala estava carregada de segundas intenções. O castanho repousou a mão na coxa alheia antes de continuar — vai poder me prender? Quem faz isso é a polícia e você não é policial. 

Mental CodeOnde histórias criam vida. Descubra agora