Capítulo 16 - A carta de Sina

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Sentada naquela varanda, bebericava em sua xícara tematizada o chá verde com leite que sempre tomava em momentos de tensão. Todos os dias antes de dormir ela fechava os seus olhos e pedia a Deus, que um milagre caísse sobre sua mãe, protegendo-a do câncer que a consumia. Era horrível o medo que ela sentia de perdê-la, desde sempre sua mãe sempre foi sua maior inspiração, desde pequena dizia a todos que se fosse um terço do que sua mãe havia sido, já estaria conformada. Como queria tê-la todo dia ao seu lado a abraçando, para que ela pudesse brincar com seus cabelos que possuía alguns fios brancos graças à idade, mas mesmo assim continuava linda, sua mãe era, de fato, a mulher mais linda que ela havia conhecido. Queria poder vê-la pra sempre cantando suas músicas antigas finlandesas, onde não se importava com quem olhava e sim com seu corpo balançando conforme o ritmo. Queria que ela pudesse acompanhar o crescimento de seu filho e percebesse o quanto ela também havia sido uma boa mãe, apesar de tudo. E agora que sua mãe não estava mais ali, sentia seu coração destroçado, aquilo havia sido a pior dor que havia sentido.

Com um suspiro forte controlando a dor no seu coração, encarou mais uma vez o envelope em sua mão com as letras douradas grifadas:

''Para Sina, a minha eterna abelhinha.''

Sorriu doce com o apelido bobo que já havia sido motivo de problemas, graças aquela vergonha adolescente de não querer carinho da mãe em frente aos amigos, mas agora ela só queria que a mãe tivesse aqui para que a chamasse assim para sempre.

Cansada de esperar, deslizou o dedo até o lacre abrindo o envelope da cor branca, puxando o papel dobrado que havia dentro; também havia encontrado diversas fotos das duas. Uma, continha Sina e a mãe na época do primeiro baile da escola, recorda-se completamente daquele dia, sua mãe pedindo mil fotos enquanto a mesma reclamava da hora e que seu parceiro de dança a esperava, mesmo assim, a mãe insistiu para mais algumas fotografias com a câmera antiga. Na outra foto atrás, Joannah tinha um sorriso forte no rosto segurando JJ e sSina não evitou uma lágrima que desceu em seu rosto que já havia sido cúmplice de várias outras lágrimas que escorreram no momento em que o médico havia dito que a mãe não havia sobrevivido. A última foto fez com que seu sorriso se abrisse apesar das lágrimas quentes, eram ela, a mãe e as irmãs, que haviam tirado no dia que realizaram o desejo da mãe de nadar em alto mar com roupas de mergulho. Levou a mão a boca segurando um soluço, fechando os olhos com força no intuito de segurar as lágrimas, e após muito custo, conseguiu contê-las.

Colocou as fotografias e o envelope na poltrona ao lado, dando uma atenção maior ao papel que estava dobrado, mas ela logo deslizou os dedos sobre o mesmo para desdobra-lo para que pudesse ler. Pôde se recordar da mãe doente no hospital depois da recaída da noite passada, tossia fraquinha, mas entregou as três cartas para a filha mais velha, deixando claro que desejava que depois que ela lesse, passasse as outras adiante.

Respirou fundo levando os olhos à letra cursiva da mãe que preenchia a carta, sabia que sua mãe havia feito com carinho e com todo o amor do mundo.

'Querida, minha abelhinha, a minha primeira filha, a pessoa mais importante da minha vida. E você é a melhor filha que eu poderia ter, é o presente mais lindo que Deus colocou em minhas mãos para que eu pudesse cuidar, educar e fazer feliz, quer dizer, que eu acho que tenha feito feliz;

Nesse momento ela só queria gritar o quanto sua mãe havia lhe feito feliz, conforme ia deslizando os olhos pelo papel lendo o que a mãe havia escrito.

'Eu sempre tenho muitas coisas para lhe falar, sentada nessa cama doente, querendo deixar registrado o amor mais forte que senti nesse mundo. Você, Sina Loukamaa, minha filha mais velha, uma pessoa incrível e humana, que comete erros, que sofre, que chora apesar de ser durona demais para assumir. Uma menina incrível, que não se impôs quando a irmã assumiu sua sexualidade, que não pensou duas vezes em dar o carinho necessário a irmã que havia sofrido uma desilusão amorosa, que se lamenta todos os dias por um erro que se arrepende completamente, que está indecisa entre dois corações, entre o que foi e o que é. Viu quantas vezes você esqueceu de você completamente para pensar nos outros? E nem se dá conta disso.

Idas E Vindas - JoaleyOnde histórias criam vida. Descubra agora