"A vida inteira, meu mundo foi feito de sons. Cores se convertiam em notas, formas tornavam-se acordes. E tudo convergia em uma melodia infindável, incomparável. Minha alma.
A música me reivindicou, me tomou pra si, me escolheu. Tudo o que vejo é m...
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Meu coração se prende na garganta e não consigo respirar, não consigo pensar, não consigo, não consigo...
Não consigo ouvir.
Não sei o que faria a seguir porque, em uma fração de minuto, tudo... volta. O mundo torna a ser barulhento e consigo ouvir motores rugindo nas ruas, a conversa dos vizinhos, pássaros cantando em algum lugar.
Há vidro quebrado no chão.
Consigo ouvir o baque surdo quando chuto um dos cacos maiores.
Eu posso ouvir, eu...
Minha mente entra em colapso e não consigo mais dominar meu corpo. De alguma forma, sento no chão. De alguma forma, puxo meus joelhos para o peito. De alguma forma, seguro minhas mãos uma na outra para forçá-las a parar de tremer.
Não penso em nenhum dos movimentos, encarando os estilhaços à minha frente fixamente. Olho para eles, mas não os enxergo.
Talvez seja minha visão anuviada.
Talvez minha cabeça só não consiga focar em nada além de si mesma.
Me sinto afogar.
É como submergir em água, ouvidos tomados por um tipo ilusório de surdez e, um segundo depois, romper a tensão, erguer a cabeça acima da superfície, tornar a conhecer o mundo através de sons.
Silêncio.
Som.
Silêncio, silêncio, silêncio.
É isso que a felicidade faz? Entrega o mundo em cores mais fortes, mais brilhantes, mais ressoantes, mais vivas, te faz esquecer de que outra existência é possível e real, apenas para, em questão de um piscar de olhos, destruir toda essa fantasia, diluí-la nas águas escuras e gélidas de medo paralisante?
Porque eu esqueci.
Esqueci qual era a sensação de ter minha vida usurpada, esqueci de me tornar forte para isso.
Poucas semanas entre boas conversas e sons diferentes me fizeram esquecer o motivo pelo qual tudo isso começou.
E eu estava tão inebriada por essa sensação, por sentir energia espalhando-se pela minha pele a cada riso, que mal percebi meus ouvidos zumbirem mais alto que o normal. Fui burra a ponto de me deixar levar pela mais leve e ilusória sensação de completude.
Talvez apenas algumas pessoas tenham sido feitas para a felicidade.
Eu não sou uma delas.
Minhas mãos se mexem sozinhas e apanham vidro do chão. Reviro-o sob a luz, reflexos se formando e sumindo rapidamente, sem um padrão, sem um aviso de quando aparecem e quando não.
Minha audição entra e sai de foco. Escuto sem discernir.
Minha mente permanece bloqueada, comigo trancada do lado de dentro.
E quero tanto, tanto me levantar e fingir que isso nunca aconteceu.
Que nunca fui devastada por uma surdez momentânea, que cinco segundos de completo silêncio jamais foram capazes de me tornar uma prisioneira de mim mesma.
Mas não consigo sair daqui.
O oceano se assoma sobre minha cabeça e não consigo puxar ar suficiente para fazer meus pensamentos funcionarem.
— Luísa. — escuto, mas sou incapaz de me mexer.
Algo em mim cedeu e não sei como reconstruí-lo.
Dedos firmes seguram os meus, trêmulos.
Um baque.
Um estilhaçar.
— Luísa.
Olhos castanhos presos nos meus. Cabelos da exata mesma cor.
— Luísa.
Ele afunda comigo.
Me alcança no leito do oceano.
E então ele me puxa de volta.
A água é densa em torno de nós e tem muito disso nos meus pulmões. Me sinto pesada.
— Lu.
A voz dele... A voz dele me devolve o ar.
Nós emergimos.
Estou de volta no controle.
Pisco, meu olhos finalmente focando.
Ele suspira, alívio e preocupação se mesclando em uma combinação quase impossível.
Só percebo que estou chorando quando suas mãos limpam minhas bochechas com delicadeza.
Algo vermelho mancha a camisa branca dele. Sangue. Meu sangue. Um corte cruza minha palma. Eu não senti dor.
Vicente se levanta do chão, me levando com ele. Suas mãos não me soltam em momento algum.
Ele me apoia até a sala e me senta no sofá.
— Você está machucada. Vocês têm um kit de primeiros socorros ou algo assim?
Nós temos, mas não sou capaz de articular uma explicação precisa nesse momento. Faço que sim e aceno vagamente para a cozinha.
Cansaço se aloja em meu corpo, meu olhos pesando.
Mal sinto o beijo que Vicente deixa em minha testa quando sai para procurar os curativos.
Deito, me enterrando entre almofadas.
A escuridão me envolve antes que eu possa cumprimentá-la.