Já é noite de domingo e estou fazendo um ótimo trabalho em ignorar completa e conscientemente a mensagem de Vicente. Okay, talvez não tão ótimo assim.
Na tarde da fatídica notificação, perguntei a Thais se ela havia passado meu Instagram para ele, ao que ela respondeu felizmente com um " É claro que não! Eu teria passado seu WhatsApp, não o Instagram." Me recusei a questionar qualquer outra coisa depois disso.
Agora, minha atenção é roubada pelo aparelho inerte na escrivaninha a cada 5 segundos.
Reposiciono o violino em meu queixo e tento me concentrar na melodia que meus dedos lutam para reproduzir. A música não flui. As notas parecem travadas, mecânicas em meus ouvidos. Suspiro audivelmente e abaixo o instrumento, desistindo de magoá-lo com minha falta de aptidão momentânea para ele. Guardo violino e arco com cuidado maternal, e meus olhos passam a vagar pelo espaço em busca de algo que estabilize meus pensamentos.
Minha visão é fisgada pelo caderno que carrego para baixo e para cima, repletos de pensamentos em forma de rabiscos. Agarro-o e me jogo pesadamente na cadeira da escrivaninha, puxando meus lápis coloridos para mim. Cores quentes são transferidas para o papel, guiadas pelo meu traço, enquanto deixo meu subconsciente formar a desenho.
Apenas risco, sem saber com exatidão o que cada toque de cor no papel tem a intenção de formar. Talvez não forme nada. Continuo desenhando, o volume de meus pensamentos diminuindo com ideias gravando-se na superfície branca.
Afasto meu rosto da profusão de tons de amarelo, laranja, vermelho e marrom que agora é a antiga folha branca quando sinto que o último resquício de pensamento agitado foi extravasado e contemplo o que eles me levaram a fazer.
Tá de brincadeira.
Grunho, afastando o caderno de meu corpo. Alguns lápis rolam pela madeira lisa e caem no chão, mas não me incomodo em apanhá-los. No momento, estou muito ocupada ficando irritada com meus próprios pensamentos.
Na ponta oposta da mesa, no lugar para onde eu o empurrei, o rosto de Vicente me encara, vibrante em todas as cores do outono fundidas, aquecidas pelo último resquício de luz do verão. Lindo. Grunho outra vez e me levanto.
Troco rapidamente minhas roupas por um um pijama confortável, escovo os dentes e bebo água.
Me jogo na cama e cerro os olhos bem apertados, me obrigando a dormir para silenciar minha mente traíra.
🎼
Na segunda de manhã, esgotei todos os argumentos que me impediriam de ter o mínimo de educação e responder ao garoto.
Abro a conversa outra vez e releio a mensagem.
Ele nem escreveu um bom dia. Então também não é tão educado assim. E por quê eu iniciaria uma conversa com alguém que nem teve a decência de me desejar bom dia? Esse é um excelente motivo para não respondê-lo. Mesmo. Balanço a cabeça, expulsando o argumento fajuto de minha mente antes que ele mine minha recém descoberta coragem.
Meus dedos hesitam sobre a barra de digitação por um segundo.
Digito a resposta e envio rapidamente, antes que possa desistir.
Oi, bom dia : Luísa
Meu subconsciente insuportável me obriga a digitar isso, pois ao menos eu sou educada. Na maior parte do tempo.
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Último Som
Romansa"A vida inteira, meu mundo foi feito de sons. Cores se convertiam em notas, formas tornavam-se acordes. E tudo convergia em uma melodia infindável, incomparável. Minha alma. A música me reivindicou, me tomou pra si, me escolheu. Tudo o que vejo é m...
