Olhares

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Levantei ligeiro e me enfiei debaixo do chuveiro. Pensar na Luna de outra forma me fazia arfar, suar. E eu a imaginava junto a mim.

"E agora, como vou olhar em seus olhos?" — pensava a todo instante enquanto tomava banho. Nunca senti algo assim. Já tive algumas namoradas, mas Luna era diferente; eu estava completamente apaixonado por ela.

Saí do banho, me vesti e fui em direção à cozinha.

— Acordou cedo, filho.
— É, eu perdi o sono — falei.
— Aconteceu alguma coisa? — Rebeca perguntou desconfiada.
— Não, por quê?
— Você está estranho, está diferente.
— Eu estou bem, não se preocupe — respondi, enchendo minha xícara de leite.
— Você sabe que o que precisar, eu estou aqui, né?
— Sei — bebi o líquido quente e mordisquei meu sanduíche. — Bom, eu vou indo.
— Está muito cedo, Josh.
— Eu vou caminhando — falei. — Vai ser bom uma caminhada pela manhã.

Saí de casa tentando parecer o mais normal possível, mas meu coração parecia querer saltar do peito. O frescor da manhã ajudava a acalmar meus nervos, mas a cada passo que eu dava, a ansiedade voltava com força. Caminhei pelas ruas quase vazias, sentindo o silêncio pesar, como se o mundo inteiro soubesse o turbilhão que eu carregava por dentro.

Cheguei à praça central, onde eu e Luna costumávamos nos encontrar antes de ir para a escola. Não sabia por que tinha vindo ali; talvez fosse a necessidade de sentir a presença dela, mesmo que indiretamente. Sentei em um dos bancos e encarei o céu, que começava a se tingir de laranja com o nascer do sol.

Minha mente voltou para ontem, o beijo, o toque e o meu sonho que tive com ela. Ah, Luna, você está me enlouquecendo...

— Josh? — Ouvi a voz que já conhecia tão bem e meu corpo inteiro congelou.

Virei devagar e lá estava ela, com uma expressão curiosa e aquele sorriso que fazia meu coração disparar. Luna carregava uma mochila no ombro e uma garrafa d’água na mão, vestida com roupas simples e modestas.

— O que você está fazendo aqui tão cedo? — perguntou, aproximando-se.
— Eu... — Gaguejei, tentando parecer calmo. — Só queria dar uma volta antes de ir para a escola. E você?
— Às vezes faço uma caminhada logo cedo e depois sento aqui na praça para ler um pouco — disse, sentando ao meu lado.

Ficamos em silêncio por um tempo, tentando disfarçar o que havia acontecido entre nós um dia antes. Respirei fundo, tentando encontrar palavras.

— Eu, bom... quero te pedir desculpas por ontem. Acho que fui muito invasivo.
— Desculpas? — Ela riu, inclinando a cabeça de leve. — Sem problema, Josh. Eu até gostei.

Luna me olhava diretamente nos olhos, e naquele momento percebi que seria impossível continuar escondendo meus sentimentos. O que eu sentia estava escrito em cada detalhe do meu comportamento, e esconder isso parecia mais exaustivo a cada segundo.

— Luna... — Comecei, com a voz mais baixa do que pretendia. — Tem algo que eu preciso te contar.

Ela franziu o cenho, um misto de preocupação e curiosidade nos olhos.

— Tudo bem, pode falar. O que foi?

As palavras estavam presas na minha garganta, e por mais que eu quisesse confessar, o medo de arruinar nossa amizade me segurava. O silêncio entre nós começou a se estender, e eu sabia que precisava dizer algo antes que ela achasse que era algo pior do que realmente era.

— Eu... acho que estou... — Comecei de novo, mas antes que pudesse terminar, o som de um celular interrompeu o momento. Era o dela.

Luna pegou o aparelho, olhou a tela e fez uma careta.

— É a minha mãe. Preciso atender. — Ela se levantou, me lançando um olhar rápido. — Me espera aqui? Não vou demorar.

Assenti, aliviado e frustrado ao mesmo tempo. Ela se afastou para atender a ligação, e eu fiquei ali, sozinho com meus pensamentos, me perguntando se teria coragem de terminar o que comecei.

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