A noite caiu rápido, e com ela veio aquele silêncio incômodo que sempre pairava em casa. Não consegui ir até a casa de Luna no fim do dia, Rebeca precisava de minha ajuda para algumas correrias, então tive que adiar minha ida até lá. Após ajudar ela com as compras e buscar Alby no veterinário enfim chegamos em casa. Tomei um banho, fiz minhas tarefas e saí do quarto pronto para preparar algo para comer, visto que não quis jantar, já era umas 22 horas e Rebeca estava na sala, assistindo algo no celular, e o som distante das risadas da TV contrastava com o vazio que eu sentia.
- Oi, filho, está com fome? Perguntou ela ao notar minha presença.
- É, eu vou preparar um sanduíche
- Eu preparo para você. - E antes que eu pudesse responder ela se levantou e seguiu para a cozinha. Logo depois disso, senti Alby se aproximando, o som leve das patinhas ecoando pelo chão.
Ele se enroscou nos meus pés e soltou um pequeno latido, como se percebesse meu desconforto.
- Ei, cara... não começa com esse olhar, - falei, me abaixando para afagar a cabeça dele.
Ao ver Rebeca ali, na cozinha toda atrapalhada, me fez perceber que talvez não fosse culpa dela nosso afastamento, ou ah... Não sei nem explicar, acho que no fundo, eu não tinha tanta certeza disso.
Parte de mim ainda culpava minha mãe por ter escolhido a carreira, os em vez de mim. Mas e se fosse ao contrário, fosse meu pai que tivesse me "abandonado", será que eu também pensaria assim? Não sei...
Fiquei ali, encostado no balcão, observando Rebeca se atrapalhar com os ingredientes. Ela sempre parecia tão... presente e ao mesmo tempo tão distante. Era estranho como alguém que carregava meu sangue podia ser tão difícil de compreender.
- Preciso de ajuda aqui, Josh! - reclamou, rindo enquanto tentava virar a omelete.
- Tá bom, tá bom! - respondi, indo ajudá-la.
Enquanto mexíamos os alimentos, Alby ficou de pé tentando alcançar o balcão, farejando tudo com aquela curiosidade de sempre.
- Sai daí garoto! - brinquei, rindo. Ele apenas latiu e abanou o rabo, como se estivesse nos aprovando.
Por alguns segundos, tudo parecia normal, quase familiar. Mas então Rebeca se virou para mim, e o olhar dela me fez sentir aquela pontada que sempre aparecia: mistura de mágoa, saudade e ressentimento.
- Josh... você anda distante. - disse, tentando soar casual, mas a tensão era palpável.
- Estou só cansado. - murmurei, sem coragem de encarar o olhar dela por muito tempo.
A verdade é que eu não sabia lidar com ela. Não depois de tantos anos em que ela parecia escolher tudo menos eu. Ela dizia que era "temporário", que era para o bem da carreira, mas o temporário virou anos, e eu cresci com o vazio da ausência dela preenchido pelo meu pai.
Alby sentou aos meus pés, pressionando a cabeça contra minha perna, e eu suspirei. Pelo menos alguém entendia meu silêncio.
- Sabe, Alby, às vezes eu queria que tudo fosse mais simples... - murmurei. Ele latiu baixinho, como se entendesse.
Rebeca continuou mexendo a comida, mas agora em silêncio. O silêncio entre nós era confortável e desconfortável ao mesmo tempo, carregado de anos de distância não resolvida.
- Josh... - começou ela, hesitante. - Eu sei que falhei. Que fui distante. Mas... eu sempre quis o melhor pra você.
Olhei para ela e senti o peito apertar. Aquilo era quase um pedido de perdão, mas também me lembrava de todas as vezes em que me senti sozinho.
- Talvez o "melhor" para você não tenha sido o melhor para mim. - disse, finalmente encarando-a.
Ela baixou a cabeça, mexendo na frigideira, sem saber o que responder.
- Eu sei... - murmurou baixo.
Por um instante, o tempo pareceu parar. Rebeca e eu, mãe e filho, mas também dois estranhos tentando se entender. Alby deu um pequeno latido, quebrando o clima pesado, e eu sorri involuntariamente.
Depois do jantar improvisado, ajudei Rebeca a organizar a cozinha. Cada gesto era carregado de uma estranha intimidade, como se tentássemos nos reencontrar depois de anos de distâncias silenciosas.
Mais tarde, quando fui para o quarto, peguei o celular e vi que Luna havia respondido à minha última mensagem. Sorri sozinho. Ela e eu, apesar da vida complicada, ainda conseguíamos encontrar um refúgio um no outro.
Deitei na cama, com Alby enroscado ao meu lado, e olhei para o teto, sentindo o peso e a leveza de tudo ao mesmo tempo: a presença de Rebeca na cozinha, a lembrança de Luna, o conforto silencioso do meu cãozinho. Era confuso, intenso... mas, de algum jeito, sentia que estava aprendendo a lidar com cada pedaço da minha vida.
E amanhã, pensei, tudo mudaria novamente. Talvez com Luna, talvez com minha mãe... ou talvez com ambos. Mas uma coisa eu sabia: não estava sozinho, e isso já era um começo.
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Luna
RomanceDuas vidas que se encontram e o improvável acontece Sinopse Josh, sem vontade própria, volta a morar com a mãe depois de muitos anos , após perder o pai em um grave acidente. Só não esperava que com sua volta, o destino te trouxesse Luna...
