Quinze de Julho
1:45am
- Madalena?
A sua voz ensonada penetrou os meus ouvidos, após atender a chamada ao quarto toque. Senti um aperto tão grande por lhe ter ligado, que as minhas palavras desapareceram.
Sentada num banco de jardim, com a Athena á minha volta e com o coração acelerado. Não fui capaz de adormecer, devido ao ambiente muito frio entre mim e a minha irmã. Ainda nada nos tínhamos falado desde a discussão que tivemos e isso fazia-me sentir horrível.
- Baby, o que se passa? - Perante a sua alcunha carinhosa, voltei a chorar. Estava num pranto e foi esse o motivo que me levou a sair de casa. O André continuava a tentar falar comigo. - Estou a horas de ti, não me tortures desta forma. Fui eu? Fiz alguma coisa para te magoar? M', fala comigo, por favor.
- Desculpa, não devia de te ter ligado.
- Claro que devias. Deves ligar-me sempre que precisares de falar. Estou aqui para te ouvir. - Ouvi-o arrastar-se pela cama, bocejando. - Sou eu? Fui eu que te deixei assim?
- Não. Foi a Mafalda. Ela sabe o que aconteceu entre nós e não ficou nada feliz.
- Imagino que não. O que te disse?
- O que achas, André? Que sou ingénua por confiar em ti. - Encolhi os ombros, olhando em redor, visto ser tarde e não querer correr algum risco por estar na rua. - Está desiludida comigo e não me falou hoje.
- Lamento, M'. Vocês têm que falar. Como tua irma e depois de te ver sofrer tanto, deve estar preocupada que aconteça o mesmo. Ela gosta de ti como nenhuma outra pessoa vai gostar e a ligação que vocês têm é tão forte que faz com que sinta a dor que tu sentes. - As palavras tão calmas e sentidas, proferidas por ele, aqueciam gradualmente o meu coração. - Eu percebo-a e percebo que te queira proteger de mim. Nunca vai ser uma escolha para ti.
- Eu sei. Estou tão confusa, André. Tenho pensado em ti todos os dias. Pelos vistos, nada mudou. Continuo cegamente apaixonada por ti ou pela minha ideia de ti. Não sei se é um surto por te ter voltado a ver depois de tanto tempo e perceber que és o homem que na altura quis ou se nunca deixei de gostar realmente de ti. - Um suspiro abandonou os meus lábios.
- Eu também tenho pensado muito em ti. No quanto quero voltar a ter-te nos meus braços e no quão injusto isto é para ti. Apesar de saber que te magoei muito, eu já não sou essa pessoa Madalena e só me afasto se tu me pedires. Não vai ser a memória do que correu mal.
- Não me peças isso... Não estou na posição de decidir o que quer que seja para ti. Ou até para mim. - Lambi os lábios. - Tu vais embora e não vai haver um futuro para o que acordou dentro de nós no último fim de semana.
- Isso não quer dizer nada e tu sabes.
- Quer dizer tudo. Menos de duas semanas e deixo de te ver. Como esperas que lide com isso pela segunda vez? Quando agora não há mágoa para me agarrar. Não é justo.
- Desculpa baby, eu sei que não. Mas também não é justo voltar a perder-te. Mesmo que nem te tenha agora. Eu sei que podia resultar desta vez, M'. Eu já não sou aquela pessoa, deixa-me provar-te isso. Deixa-me fazer-te feliz por este tempo que nos resta e depois tomas a decisão, seja ela qual for. Mas não me negues isso. - As suas palavras falharam ligeiramente, devido ao nervosismo que se sentia na sua voz. - Só quero deixar melhores memórias no teu coração. - O rapaz respirou fundo.
- Aprecio muito as tuas palavras e dedicação ao quereres fazer tudo certo. Fazes com que deseje fechar os olhos e atirar-me de cabeça outra vez para os teus braços. Mas há coisas que não vão desaparecer, André. Tu és uma pessoa incrível, sempre foste e eu não tenho dúvidas que ainda sejas mais agora.
- Então o que te impede?
- Eu mesma. O quanto sofri. São memórias que não se apagam. Não me quero perder de mim e voltar a passar por tudo novamente. Não quero voltar a perder-te. Se após uma noite a ideia de te ver ir embora já me aterroriza, como vai ser? Não vou aguentar amar-te por duas semanas e saber que é limitado.
- Não tem que ser limitado, M'. Podemos fazer com que dê certo. Já não somos miúdos. Quero tanto apagar essas memórias da tua cabeça e coração. - Suspirou, igualmente vulnerável aos nossos sentimentos um pelo outro. - Desculpa, não quero piorar as coisas.
- Não estás a piorar nada. Tenho saudades tuas, André. - Murmurei, admitindo-lhe. - Tens a noção do quanto gostava de ti? De viver a tua vida e construir a nossa.
- Tenho. É por isso que me custa tanto. Porque eu queria o mesmo que tu.
- Madalena? Tu estás a gozar comigo? - A passos largos, reconheci a Mafalda. Claramente preocupada a aproximar-se de mim. - São duas da manhã! O que fazes na rua?!
- Podemos falar depois?
- Quando quiseres. Resolve as coisas com a Mafalda, por favor. Não quero causar-te nada de errado na vida, principalmente em relação á tua irmã. Até logo.
- Obrigada por atenderes. Até logo. - Desliguei a chamada, vendo-a parada á minha frente. Ela apenas balançou a cabeça. - Desculpa, mas não quero discutir. - Usei as mangas da camisola de modo a secar as minhas lágrimas. - Senti-me a sufocar em casa.
- E vens para a rua sozinha? Tu não estás mesmo bem dessa cabeça. Apesar de discordar, não quer dizer que não possas falar comigo. Ele realmente transforma-te.
Escolhi não responder.
Segurei firme a trela da Athena, levantando-me do banco para voltar para casa. Ouvi-a chamar-me, apesar de ter continuado.
Quando se aproximou de mim, segurou o meu braço para que parasse de andar. Virei-me para ela, pronta para discutir. Não precisava que me atacasse constantemente, quando claramente o assunto do André me estava a afetar.
- Não achas que já chega?! Deus queira que nunca sofras metade do que eu sofri e que não percas uma pessoa que tanto amaste durante o período mais bonito da tua vida! - Elevei o meu tom de voz, fechando a porta de casa. - Foda-se Mafalda, se não consegues compreender, então pelo menos não me julgues!
A rapariga encostou-se á porta com as mãos nos bolsos, sem nada para me dizer. Quis dizer algo irónico, mas contive-me.
- Estou cansada. Amanhã vou trabalhar e quero dormir. Quando tiveres algo mais que os teus ataques desnecessários, diz-me. - Antes de ir para o quarto, tirei a trela e o peitoral á nossa cadela, deixando-a ir. - Eu sei que não estavas á espera disto, mas eu também não.
- Acreditei mesmo em ti. Que estavas bem e recuperada do André. Sinto-me uma otária por nunca ter percebido. - Admitiu.
- Nem eu percebi, como querias tu perceber? A sério Mafalda, é disso que se trata? Enganei-te? Sim. Mas também me enganei a mim. Desculpa por isso, mas não tive controlo. As coisas foram acontecendo e eu não fui capaz de controlar. Só não sabia como te contar logo, porque sabia no que ia dar. - Disse-lhe, mais calma.
- Desculpa. Exagerei anteontem. Devia ter-te ouvido e não ter julgado. Mas revolta-me tudo o que envolva o André. Queres falar? - Não, a verdade é que não queria.
- Queres ouvir como estou confusa e que quero voltar a estar com ele outra vez? Não me parece que queiras e é tarde.
Encolhi simplesmente os ombros.
(...)
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HURRICANE ➛ ANDRE SILVA
Fanfic"Nunca quis ser o dedo que aponta, nem mesmo quando estendias o dedo da afronta, eu era louco por ti, tu eras louca, qual de nós a cabeça, qual a forca?"
