20. Um segredo

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O retorno não foi um evento; foi uma absorção.

Jungkook voltou para a casa de seu pai como um objeto perdido que ninguém se importa de ter de volta, mas que se recolhe por inércia.

Quando Ji-ho ordenou sua volta e anunciou à madrasta e aos outros irmãos que ele ficaria, o silêncio foi sua única recepção.

Nenhum protesto. Nenhum espanto. Apenas um assentimento morno, um olhar que escorregou por ele e se fixou em algum ponto distante, como se sua presença fosse um móvel antigo reposicionado. Isso era estranho.

Agora, ele estava preso em um cativeiro sem grades.

As portas não tinham trancas (exceto a dele, à noite, barricada com uma cadeira), as janelas não tinham barras. A prisão era feita de olhares que se desviavam, de conversas que cessavam quando ele entrava na cozinha, do espaço vital que se estreitava ao seu redor como as paredes de um poço.

Era um exílio doméstico.

Eles não conversavam.

Habitavam o mesmo espaço como espectros em rotas paralelas que raramente colidiam. Exceto Ji-ho. Ji-ho sempre "aparecia". Surgia no corredor quando Jungkook ia ao banheiro à noite, parado na penumbra, só observando.

Sentava-se à mesa do jantar diretamente de frente para ele, os olhos fixos, mastigando lentamente, como se degustasse algo além da comida. Sua presença era uma sombra constante, uma umidade nos ossos.

Jungkook sempre fora um prisioneiro naquela casa. Longe antes de Ji-ho declarar sua obsessão. A prisão começara na infância, na forma de desprezo sutil, de apelidos cortantes, de ser o "outro", o filho da tia, o ômega frágil em uma família de alfas ásperos.

Havia sido maltratado com negligência, com palavras que eram pequenos abusos diários, com a certeza de não pertencer. Preso dentro de sua própria família, se é que aquela congregação de estranhos sob o mesmo teto podia ser chamada disso.

Seu único irmão mais novo, Ju-shy, era o ponto de luz distorcido nessa escuridão. O único que, às vezes, deixava um prato com comida extra na porta do seu quarto anexo. O único cujos olhos, quando cruzavam com os de Jungkook, não transbordavam desdém ou indiferença, mas uma pena profunda e impotente que doía quase tanto quanto o ódio.

Enquanto seu filhote crescia, transformando seu corpo em algo estranho e pesado, Jungkook pintava. Freneticamente.

O quarto anexo dos fundos, outrora um depósito, tornara-se seu estúdio, sua cela criativa. As telas se multiplicavam, ocupando cada centímetro das paredes. Rostos distorcidos pela angústia, paisagens de florestas que pareciam engolir a si mesmas, e, sempre, sempre, o rosto de Seokjin. Seokjin sorrindo, sério, de perfil, borrado pela memória ou delineado com uma precisão dolorosa. Era seu exorcismo e sua tortura.

Jungkook ainda pintava e vendia seus quadros, ajuda que teve pelo seu irmão, Ji-shy, que agora ela seu empresário. Ele vendia e negociava os quadros.

Hoseok ligava, sua voz um fio tênue de normalidade através da linha. "Tudo bem aí, Kook-ah?" "Precisa de alguma coisa?" Jungkook o acalmava sempre, com vozes suaves e mentiras bem ensaiadas. "Tudo tranquilo, Hobi. Foca no teu trabalho novo." Ele não seria a pedra no sapato do amigo alfa. Não puxaria Hoseok de volta para esse pântano. A culpa de já ter sido um fardo por tanto tempo era suficiente.

E sem Seokjin, sem o cheiro, o toque, a presença calmante para seu alfa, o bebê... o bebê precisava de algo. Feromônios lupinos para crescer forte, o ambiente instintivo de uma matilha, mesmo que doente.

Nada melhor do que uma casa que sempre teve seus irmãos lúpus, por mais que fosse uma matilha despedaçada. Era um pensamento amargo, pragmático. Melhor o medo e os olhares que não o encaravam do que o vácuo absoluto, a privação sensorial que poderia afetar seu filho. Ele se convencia disso nos dias mais sombrios.

Stay | ABO | JINKOOKHistórias para pegar e não largar. Descubra agora