19. Distância

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Seu apartamento em na cidade grande cheirava a canja de galinha e desinfetante um cheiro que grudava nas cortinas e no sofá, um cheiro de doença e cuidado.

Era o cheiro da rotina que Hoseok tinha criado para ele. Todo dia, ao amanhecer, Jungkook ouvia o ruído suave da panela no fogão, os passos leves de Hoseok tentando não acordá-lo, o sussurro na cozinha.

Todo dia, ao entardecer, a mesma sequência ao contrário: os sapatos sendo tirados na porta, o suspiro aliviado, as perguntas cuidadosas.

— Comeu direito hoje?
— Tomou as vitaminas?
— A dor nas costas melhorou?

Hoseok cuidava dele com uma dedicação que doía. Dava banho quando as náuseas eram tais que Jungkook mal conseguia ficar em pé. Massageava os pés inchados enquanto contava histórias bobas do estúdio onde dava aulas. Às noites, sentava na beira da cama e cantarolava até o adormecer.

Hoseok era seu irmão. Um irmão que nunca teve. Que cuida. E proteje.

Ele até parou de ver Yoongi para cuidar de Jungkook.

Mas Jungkook via o cansaço nos cantos dos olhos de Hoseok. Via a forma como ele conferia o relógio discretamente, calculando quantas horas de sono teria antes do primeiro horário do outro dia.

Hoseok aceitou o emprego novo saindo da tokhappy. E tentava se esforçar a cada dia.

A gravidez não era um segredo. As náuseas não eram mais apenas náuseas; eram lembretes. A sensibilidade aos cheiros não era apenas incômodo; era uma assinatura. A de Seokjin.

O telefone vibrou no bolso do seu casaco, um zumbido insistente contra a coxa.

Ele não precisava olhar para saber quem era.

Cada notificação era uma agulha no tecido frágil de sua sanidade.

"Meus pésames pelo seu pai."

"Precisamos conversar."

"Fui na sua casa."

"Por favor me atende."

"Jungkook-ah me perdoa, eu surtei."

"Eu surtei".

"Você está bem?"

"Não precisa renovar a marca? Ele te deixou em paz?"

"Ele te deixou em paz?"

"Desculpa, vim na sua casa mais uma vez e você não está."

E então, hoje de manhã, a última. A que parecia ter esvaziado o ar do cômodo.

"Jungkook-ah, vou te deixar em paz."

Simples. Final. Não havia raiva visível nas palavras.  Seokjin estava baixando a guarda, recuando.

Desistindo.

A respiração de Jungkook parou. A mensagem final de Seokjin. O alfa na sabia onde era seu apartamento na cidade, só no interior.

Como ousava ele ter aquele alfa dentro de si, suas marcas, enquanto seu pai definhava em uma cama sem ele saber ?

A memória era um filme de horror em loop: o cheiro antisséptico do quarto do seu pai ... e, em contraste nauseante, a lembrança quente e suada do sexo com Seokjin.

Mas o que crescia em seu ventre não era apenas culpa. Era uma vida. Uma vida que tinha o direito absoluto, primordial, de conhecer seu outro criador. O instinto, mais forte que a vergonha, mais forte que o medo, batia em seu peito com asas de passarinho aprisionado. Ele tem que saber.

Stay | ABO | JINKOOKHistórias para pegar e não largar. Descubra agora