21. Jinmoon

534 110 17
                                        

O ar no corredor do hospital, da sala do consultório, parecia ter se solidificado.

Seokjin avançou, seus passos  arrastados, como se cada movimento exigisse um esforço sobre-humano dele.

Mas dentro. Dentro dele, seu lobo uivava um som interno de angústia pura que ameaçava rasgá-lo de dentro para fora.

Uma certeza primitiva, mais forte do que a razão, brotava das profundezas de seu ser de alfa: aquele pequeno feixe de vida, envolto em mantas no colo de Jungkook, tinha grande chance pertencer a ele.

Ele se posicionou diante deles, e seu olhar, pesado e sombrio, ignorou Jungkook. Foi direto para o rosto do bebê, tenso e corado entre os acessos de tosse.

Jinmoon, o nome do paciente que estava na ficha.

Ele lindo, uma perfeição frágil que fez seu lúpus se contorcer de uma mistura de possessividade feroz e uma dor aguda.

Controlar seu cheiro e suas emoções foi uma batalha seu alfa Lúpus, mas ele forçou uma neutralidade.

O instinto rugia, mas a mente racional, ferida e desconfiada, tecia narrativas torturantes.

De quem era aquele filhote? De Jungkook, sim, mas... com quem?

O cheiro que envolvia o ômega não era só dele; havia sobre ele o aroma marcante, protetor, de outro lúpus. O cheiro de cuidados intensos, de um de seus irmãos da alcateia? A ideia foi como uma faca torcida em uma ferida antiga, alimentando um ciúme retorcido e um ressentimento profundo.

— Você... está bem? — A voz de Jungkook o alcançou, um sussurro carregado de uma preocupação que parecia riscar o ar. Seus olhos escaneavam o rosto esguio e pálido de Seokjin.

Seokjin não suportou aquele olhar.

— Não finja que se importa — rosnou baixo, e a voz que saiu não era apenas humana; era profunda do lobo que havia sido negado, uma manifestação crua da raiva que o consumia há meses.

Antes que Jungkook pudesse reagir, Seokjin agiu por puro instinto profissional — e talvez por uma necessidade incontrolável de tocar, de verificar, de reivindicar de alguma forma.

Com movimentos precisos, mas que ocultavam um tremor quase imperceptível, ele tirou suavemente o bebê do colo do ômega.

Com a mão livre, ele pegou o estetoscópio que pendia de seu pescoço as ajustou nos ouvidos.

Ele afastou levemente o casaquinho do bebê e colocou o diafragma no pequeno peito, sobre o coração acelerado e os pulmões cheios de sibilos.

O som que ouviu um chiado úmido concentrou instantaneamente toda a sua angústia em uma missão clara: curar. Salvar.

Jungkook, vendo seu filho nas mãos do alfa, encolheu-se ainda mais na cadeira de plástico, como se tentasse desaparecer.

— Desculpe

Seokjin devolveu o bebê com o mesmo cuidado, mas evitando tocar os dedos de Jungkook.

Suas mãos agora tremiam mas ele buscou refúgio na prancheta, focando no nome escrito.

— Jinmoon — leu em voz alta, e as sílabas soaram como uma piada cruel do destino em seus lábios.

Um bufou seco, de descrença amarga, escapou-lhe.

— A saturação está muito baixa e o chiado é disseminado. Não é um caso para observação simples. Será transferido para a ala de internação pediátrica. Precisa de monitoramento contínuo e oxigênio umidificado.

Stay | ABO | JINKOOKHistórias para pegar e não largar. Descubra agora