Tudo começou com um acordo. Uma farsa. Uma marca de proteção que se tornou uma confissão silenciosa.
Agora, Seokjin estava em casa.
No apartamento vazio do centro, que cheirava a mofo e solidão.
Nem no escritório do hospital, com sua cama estreita e suas paredes brancas. Estava na casa que comprara quando ainda acreditava que a vida poderia ser algo mais do que plantões intermináveis.
E a febre queimava em seu corpo como fogo interno, uma chama que os remédios não conseguiam apagar. Dez comprimidos. Dez. Ele havia tomado ao longo das últimas horas, depois de Yoongi o expulsar do hospital, depois de Jungkook ficar com Jinmoon na enfermaria.
Dez comprimidos para inibir o cio, para acalmar seu lobo, para tentar recuperar o controle que escapava por entre seus dedos como areia.
Não adiantou.
O gosto da medicação misturado à frustração.
As cortinas estavam fechadas,m. Sua garganta estava seca. Cada músculo do seu corpo parecia um fio esticado prestes a se romper.
Porque agora ele tinha um filhote.
Um filhote que surgiu de uma marca. Uma marca que ele fez para proteger um ômega arisco que batera em sua porta anos atrás, com olhos grandes demais e desconfiados demais.
Ele se lembrava de cada detalhe: porta se abrindo, e um ômega parado ali para fazer um entrega do seu trabalho. E ele, Seokjin, em vez de recusar educadamente, em vez de simplesmente fechar a porta, havia descarregado toda a sua amargura naquele estranho. Fora rude. Fora cruel. Fora exatamente o tipo de alfa que ele sempre jurara não se tornar.
Aquele ômega detestava alfas que usavam seu status como muleta para a má educação.
E naquele dia, ele havia sido exatamente isso.
Aquele ômega que, em uma noite de tempestade de sentimentos, o pintou em uma tela de problemas que o chamava de mostro, quando Seokjin nunca soube que era.
Que história maluca era essa.
Mas aquela era sua história.
Kim Seokjin, alfa lúpus da prestigiosa família Kim, herdeiro de uma alcateia poderosa, se mexeu na cama, os lençóis embolados ao redor de seu corpo magro. A febre distorcia seus pensamentos, transformando memórias em sonhos e sonhos em memórias.
Ele via o rosto de Jungkook na primeira vez que entrou em seu apartamento, ele desconfiado, tenso, com a postura de quem esperava um golpe a qualquer momento. E via o mesmo rosto horas atrás, no escritório, molhado de lágrimas, dizendo eu te amo como se aquelas palavras fossem uma faca sendo arrancada de um ferida. Passado e presente se misturavam.
Ele fechou os olhos, e o sono ou desmaio, veio em ondas escuras.
Não sabia quanto tempo passou. Minutos. Horas. O suficiente para que a febre subisse mais, para que seus sonhos ficassem mais vívidos, mais confusos.
Em um deles, Jungkook estava sentado na cama ao seu lado, Jinmoon no colo. O bebê não chorava. Apenas olhava para ele com aqueles olhos escuros que eram uma cópia perfeita dos do pai, do outro pai. E Jungkook sorria. Não o sorriso triste e cansado que ele usava como máscara, mas um sorriso verdadeiro, pequeno, frágil, que iluminava todo o seu rosto.
— Você vai ficar bem — a voz de Jungkook dizia no sonho. — A gente vai ficar bem.
Seokjin tentou responder, mas sua boca não se movia. Tentou estender a mão, mas seu braço estava pesado demais.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Stay | ABO | JINKOOK
FanfictionStay - fique Jungkook é um ômega um pouco peculiar, que conhece Seokjin, um alfa lúpus, de uma forma um pouco inusidada. O que começa como apenas um a desavença acaba se tornando uma conexão verdadeira. Com o tempo, Soekjin percebe que pode ajuda...
