O direito ao luto foi-lhe negado.
Jungkook não entrou no salão de velório. Permaneceu do lado de fora, uma figura espectral em um terno preto mal ajustado, emprestado e que cheirava a naftalina e a outra pessoa. A fita branca de luto amarrada em seu braço parecia uma ironia cruel, uma marca de um pesar que ele não tinha permissão para expressar publicamente.
Por vinte e quatro horas intermináveis, ele se ajoelhara na calçada em frente à casa do tio, sob uma chuva fria e persistente que parecia lavar apenas a sujeira do chão, nunca a culpa que lhe atribuíram. A água misturou-se às suas lágrimas até que não fosse mais possível distingui-las. Seu corpo tremia de frio e exaustão, mas a dor no peito era um fogo imóvel.
Foi Ju-shy, o mais novo, o único cujo olhar ainda carregava um vestígio de humanidade, que finalmente o resgatou. Com movimentos silenciosos, ajudou Jungkook, rígido e quase inconsciente, a se levantar, levou-o para sua própria casa, deu-lhe um copo de água que ele não conseguiu beber, e o convenceu, com uma paciência triste, a vestir o terno. Era o mínimo. O mínimo para que Jungkook pudesse ao menos testemunhar de longe.
O velório do velho Jeon era um evento. O salão estava repleto de pessoas importantes, rostos sérios, roupas caras. O patriarca era influente, respeitado. Uma família de alfas lúpus, um símbolo de poder e continuidade. E ali, do lado de fora das portas de vidro fumê, como um fantasma indesejado, estava Jeon Jungkook. O ômega. O adotado. O que não era de sangue.
Ele ficou plantado, uma sentinela de sua própria dor. Impedido de entrar. Impedido de se ajoelhar no chão duro do salão e tocar a testa no piso em reverência final. Impedido de se aproximar do retrato solene do tio, das flores, do sijo que abrigava suas cinzas. Impedido de entrar no espaço sagrado do luto coletivo.
Ju-shy sussurrara que tentaria algo, que daria um jeito. Mas as horas passaram. A tarde deu lugar à noite. As luzes do salão brilhavam quentes e convidativas lá dentro, enquanto Jungkook permanecia na penumbra do jardim, uma sombra esquecida. Sua esperança, já minúscula, definhava a cada minuto.
Foi então que um homem se aproximou, silencioso como a própria noite. Parou ao lado dele, acendeu um cigarro com um click suave. A ponta laranja brilhou na escuridão enquanto ele soltava uma baforada de fumaça que subia e se dissipava no ar frio.
— Meus pêsames — a voz era calma, neutra, sem a falsa doçura que Jungkook ouvira o dia todo.
Jungkook não respondeu. Seu coração era um punho cerrado de dor seca. O que havia para dizer?
— Não quer ficar lá dentro? — o homem perguntou, virando o rosto para observá-lo. Suas feições eram nítidas mesmo na pouca luz, carregando uma autoridade tranquila.
— Fui impedido — a resposta de Jungkook saiu rouca, quase inaudível, mas carregada de uma humilhação tão profunda que era quase tangível.
O homem estudou-o por um momento, depois assentiu lentamente, como se confirmasse uma suspeita. Tomou outra baforada.
— Ele te escondeu bem — disse, e então, surpreendentemente, um sorriso pequeno e astuto tocou seus lábios.
Jungkook franziu a testa, confuso. O que aquele estranho queria dizer?
— Vamos — o homem disse, apagando o cigarro em um cinzeiro portátil com um gesto decisivo. — Você está sob minha proteção agora. Eu sou o líder de Epik. E você vai entrar neste velório.
Jungkook piscou, atordoado. Líder de Epik. As palavras não faziam sentido. Por que? Como?
Antes que pudesse articular qualquer pergunta, outro homem se aproximou rapidamente. Mais jovem, com uma presença igualmente forte, mas um olhar mais aberto, quase compassivo. Sem cerimônia, ele envolveu Jungkook em um abraço rápido, mas firme, que transmitiu uma solidariedade surpreendente.
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Stay | ABO | JINKOOK
FanfictionStay - fique Jungkook é um ômega um pouco peculiar, que conhece Seokjin, um alfa lúpus, de uma forma um pouco inusidada. O que começa como apenas um a desavença acaba se tornando uma conexão verdadeira. Com o tempo, Soekjin percebe que pode ajuda...
