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Laboratorio nacional de Hawkins

27 de julho de 1979 - 43 dias antes do ataque


Desde o dia em que entrei no laboratório percebi que a minha vida nunca seria a mesma. O pai fez-me acreditar que tudo ficaria bem e que ele só me queria ajudar. Eu era ingénua e acreditei. A mentira que eu me conto todos os dias é que eu era só uma criança, mas a verdade era outra. A única coisa que eu queria era acreditar que alguém se importava comigo. Que eu teria a  família que nunca tive. E quando o Peter me tentou manipular da mesma maneira que o pai fez eu senti-me a voltar ao passado. Como se tudo se repetisse de novo. Mas eu não ia deixar. Eu sabia que conseguia manipula-lo da mesma maneira que ele me manipulava. E eu ia até ao fim.

Sentei-me no chão frio da sala arco-íris encostada a um canto. Não queria fazer nenhuma das atividades que haviam disponíveis, nem falar com ninguém. O que não esperava era que o Dois se sentasse ao meu lado.

- Passou-se alguma coisa, eu vi. - disse-me

- Espiaste-me?! Sabes as regras!

- Sei, mas o pai não consegue saber se eu as quebrei ou não. Só não sei o que aconteceu. Não vi essa parte.

Uma das regras que o pai criou foi que nenhum de nós podia espiar o que os outros faziam. Os nossos poderes davam-nos essa possibilidade, mas nunca os usávamos com esse propósito e se alguém o fizesse seria condenado.

- Tens sorte de eu não contar a alguém. Podia acabar com a tua reputação aqui dentro. - avisei-o

- Talvez, mas não muda o facto de que eu vi alguém deixar o teu quarto a meio da noite. Isso também estragaria a tua reputação.

Claro que ele tinha alguma coisa na manga. Ele nunca se revelaria sem ter alguma coisa contra mim. E naquele momento tinha-me na mão.

- Não quero estragar o teu romance. Nem sequer quero saber, mas essa informação é cara. E eu neste momento sou rico.

- Ninguém acreditaria em ti!

- Não, mas também não iam deixar de confirmar nas camaras.

Ele tinha razão. Se alguém soubesse do que tinha acontecido eu seria castigada. E o Peter provavelmente nem voltava da sala de tortura.

- E qual é o teu preço? - perguntei-lhe desistindo de pensar numa solução

- Quero impressionar o pai. Da próxima vez que tivermos uma prova quero que me deixes derrotar-te.

Então era isso que ele queria. Previsível. Sentia pena por ele. O pai sempre exigiu mais dele. Era a sua primeira criação sem contar comigo e o pai esperava que ele fosse prefeito. Era triste que ele sentisse uma necessidade tão grande de provar ao pai que era tão bom quanto as suas expectativas.

Concordei com ele e vi-o afastar-se. Parecia vitorioso, como se acabasse de ganhar um premio.

Olhei em volta e vi que o Peter estava do outro lado da sala e falava com a El. Ela parecia nervosa com o jogo que tentava ganhar e o Peter parecia acalma-la. Sei que não devia, mas entrei na mente dela. Queria saber sobre o que conversavam. Tinha medo que o Peter a manipulasse a tirar-lhe o chip. A El era completamente capaz de o fazer. E também era capaz de cair na história dele.

Percebi que não ia correr bem logo que entrei na mente dela. Havia alguma coisa que bloqueava a minha visão. Quando percebi que os olhos do Peter se viraram para mim percebi que era ele que bloqueava as visões da El. Ele não queria que ouvissem a conversa.

O esforço que fiz para entrar na mente da El deixaram-me cansada e quando o meu nariz começou a sangrar, limpei-o, mas nada parava o sangue de escorrer. 

O Peter levantou-se e inclinou-me para a frente, fazendo pressão no meu nariz e parando o sangue.

- É o que dá ouvir as conversas dos outros. - Sussurrou ao meu ouvido enquanto me ajudava. - Da próxima vez tens de ser mais esperta. Não penses que estou dependente de ti. Tu é que esta dependente de mim.

Com isso levantou-se e voltou para a conversa que tinha com a El.

Filho da mãe.  


Let me go | 001Onde histórias criam vida. Descubra agora