Taboquinha, Zona Rural de Matinho, 11:25 AM
Jardel estava observando seu avô trabalhar, Cassiano era um homem dotado de muitas habilidades em trabalhos manuais, a lista era tão extensa que Jardel não saberia enumerar todas as habilidades do avô. Hoje Cassiano estava fazendo um cabo novo para um facão, era comum o cabo de madeira/plástico/resina que vinha de fabrica quebrar ou apodrecer com o tempo, então algumas pessoas substituíam o cabo original por um feito de pvc. Tratava-se de um improviso, serrava-se dois pedaços de um cano de pvc, aquecia-se essas partes ao fogo para deixa-las retas, lixava-se os pedaços até eles ficarem com um formato adequado para dar uma boa pegada, furava-se esses pedaços para poder passar os arrebites (algo como um tipo de prego que uma fez travado não saía mais, a não ser por muita força bruta) depois disso tudo o novo cabo do facão estava pronto e sua durabilidade seria bem maior do que normalmente era a dos originais.
— Ôi ai... — Exclamou Cassiano ao levantar-se —
Esse "Ôi ai" feito pelo avô era uma característica marcante dele, Jardel até já havia notado que outras pessoas diziam coisas semelhantes, mas não iguais ao "Ôi ai" de Cassiano de Rosalva. O homem vivido endireitou a velha coluna o máximo que pôde e em seguida olhou que horas eram em seu clássico relógio de pulso movido a corda.
— 15 pra mêi-dia, hora de nóis i caça jêit de mata quem tá matân nóis. — Disse Cassiano —
Jardel levantou do banquinho onde estava sentado.
— E ela tá me matando mesmo. — Comentou Jardel seguindo pela porta —
Avô e neto deixaram a oficina de trabalho que ficava afastada da casa uns 50 metros, eles seguiram por um carreiro na manga, passaram por uma porteira pequena e a fecharam novamente. Anísia já havia almoçado, os demais se serviram, Cassiano sentou-se para comer num velho banco de madeira na área coberta nos fundos da casa, logo ao lado da cozinha. Jardel sentou-se à mesa da sala. Era curioso para Jardel perceber como as pessoas de gerações mais antigas ainda mantinham velhos hábitos mesmo não havendo mais necessidade.
"Já percebi muita gente mais velha sentando no chão, em soleira de porta... isso deve acontecer porque antigamente, talvez, muitos não tivessem cadeiras e mesas, então eles ainda fazem isso hoje em dia por hábito."
"Vô toma banho usando uma quantidade muito pequena de água, mais ou menos um balde de 8 litros, isso é tão pouco que até minha vó pega no pé dele por causa disso. Para muita gente isso pode parecer estranho, mas para quem já sentiu na pele o que é a escassez de água, isso é normal. Claro que ele não precisava exagerar assim, mas fazer o quê? Velhos hábitos são difíceis de mudar."
"Sobre o dinheiro e bens materiais a coisa não tem como ser diferente, tanto vô como vó são bem econômicos, alguns até os chamariam de avarentos... bom, eu tenho que admitir que eles são mesmo, mas fazer o quê né?"
Pensou Jardel.
Jardel terminou seu almoço e lavou seu prato juntamente com a sopeira de metal branca onde seu avô gostava de comer.
— Daqui a pôc, quând a gênt assentá a cumida, eu queria que ocê fôss ali na casa de Jaime mais eu pra mód eu óia um siviç, é que eu tô sintinn uma dô no braç e não quero pilotá a mota. — Pediu Cassiano —
— Nós vamos. — Disse Jardel enquanto terminava de lavar os utensílios domésticos —
Avô e neto subiram a Ladeira da Taboquinha e entraram à direita numa estradinha estreita que levava à uma área conhecida como Barriguda, Jardel guiava a motocicleta com cuidado por entre os buracos e pedras soltas do caminho. Ao chegarem na casa de Jaime de Valdecir eles pararam a moto em uma sombra e foram checar o serviço.
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Gurunga 5
Ficción GeneralAcesse esse link para consultar o dicionário da Gurunga https://rangeloblivion.blogspot.com/2020/06/dicioario-da-gurunga.html Baseado em eventos reais NOTA DO AUTOR Este é o quinto livro da série Histórias da Gurunga, essa obra existe para a preserv...
