Clary Davis, uma figura invisível na tessitura social, se via na posição desfavorecida de ser a filha de um zelador alcoólatra, cuja existência estava marcada pela miséria desde que sua esposa o deixou, deixando-o com a responsabilidade de criar sua...
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San Diego, Califórnia Vinte e dois de julho, de 2023
— Sou toda ouvidos, gatinha.
Mia pronunciou-se quando me detive ao seu lado, assentando-me na arquibancada enquanto a observava retirar os fones e ocupar o lugar ao meu lado.
— Eu preciso da sua ajuda.
— Permite-me adivinhar, relaciona-se a um indivíduo que incessantemente ocupa seus pensamentos?
Ela sorriu entusiasmada, dando-me um leve empurrão com o ombro, ao que desviei o olhar, ouvindo-a me chamar de "fofa".
— Como você sabia? — Está evidente em sua expressão, estimada. — Verdade? — Não, tola. Já sabia que isso ocorreria. Todas têm interesse em Jack; creio que apreciam o sofrimento por mero entretenimento. No entanto, você é a primeira a nutrir sentimentos sinceros. Deseja compreender o coração antes de ver o pau.
Ela deu de ombros.
— Estou começando a decifrar o pensamento dele. - Ignorei sua última observação, e ela riu.
— Querida, ninguém compreende a mente de Jack; acredite, isso só lhe trará exaustão. — Ele me beijou. — Demorou, não é? Pensei que ele jamais tomaria tal iniciativa.
— Agora, não sei como agir; gostaria de perguntar sobre seus sentimentos, mas sinto receio. - Comecei a roer as unhas.
— Qual é seu plano para esta tarde? — Talvez estudar. — Sairemos e resolveremos isso.
—Da última vez que saímos, tornei-me alvo de zombarias em toda a escola. — Relaxe, não vou a embriagar. — Não sei, Mia.
— Gata, você tem a situação sob controle, conseguiu realizar o que ninguém antes havia feito. Agora, darei os toques finais e a prepararei para colher os frutos. - Ela levantou-se animada.
— Mia, não preciso de roupas provocativas. — Quem disse que estava falando de roupas? Sugiro que compreenda melhor Jack e tenha certeza do que realmente deseja. Estarei às 3 para buscá-la, e não se apresente de pijama; devo zelar por minha reputação.
Ela acenou enquanto se afastava, pulando os degraus da arquibancada, radiante.
— Eu não uso pijama. – Cruzei os braços, fazendo um bico, vendo-a de longe mandar-me um beijo.
Adentramos na lanchonete, que encontrava-se praticamente desocupada.
Mia gentilmente me conduziu até as últimas mesas, situadas junto à janela.
— Este estabelecimento é do meu apreço. – Mia afirmou, tomando assento e chamando a garçonete.
— É agradável – eu também me acomodei, enquanto Mia solicitava um sanduíche com cerveja, e eu, mais discretamente, optei por um suco de maracujá.
— Seria prudente que comesse mais alimentos. — Não estou com apetite. — Então, está pronta para ouvir o que tenho a dizer? – ela ajustou a postura, cruzando os braços sobre a mesa.
– Sim.
– O que vou compartilhar contigo hoje requer que prometa não revelar a ninguém. Trata-se da vida pessoal de Jack, e, embora eu não devesse divulgá-la, confio em você. Ele ficaria furioso se soubesse, mas se pretendes verdadeiramente adentrar em sua vida, é crucial que saiba no que está te envolvendo.
Mia adotou uma expressão séria, e eu engoli em seco ao receber meu suco da garçonete. Ela prosseguiu.
— Eu tinha doze anos quando o conheci. Voltava da casa de uma amiga, já tarde. Sabia que minha tia estaria preocupada, então resolvi encurtar o caminho pelas vielas do bairro. Acabei encontrando um bêbado antes que pudesse sair dali.
Fiquei tensa, relutante em acreditar que alguém já a tivesse agredido, mas ouvi-a suspirar profundamente.
— É exatamente o que estás pensando. Ele tentou me violentar. Rasgou minhas roupas, me agrediu. Quando me vi sem saída, Jack apareceu. E acha que fiquei feliz?
Ela riu sem alegria.
— Era apenas um garoto magrelo de treze anos. Como poderia me ajudar contra um brutamontes daqueles? Mas foi a única vez que duvidei dele. Jack me salvou, e até hoje não consegui retribuir essa dívida.
— Você ficou bem?
— Sim, naquele dia, tornei-me uma pessoa diferente e ganhei um amigo verdadeiro. Jack não sabia, pois não me deu atenção na época, mas esforcei-me para conquistar sua amizade ao mudar-me para a mesma escola. Até desenvolvi uma paixonite por aquele ignorante, mas passou quando conheci o Joseph – ela respirou fundo.
— Mas agora, quero que saiba sobre ele – ela ficou triste, e eu me ajeitei.
— O Jack de hoje é resultado do passado – ela parou para morder seu sanduíche e continuou depois.
— Ele perdeu tudo, Clary. Desde criança, teve que se virar sozinho, sobreviver sozinho.
— E os pais dele? — Mortos. — Jack pelo menos os conheceu? — Foram assassinados diante dele quando tinha apenas dez anos.
— Não, as pessoas da escola comentariam sobre esse crime – engoli em seco, vendo-a suspirar profundamente.
— O pai dele era político e acabou acumulando uma grande dívida de jogo. Sabe o que acontece quando se deve a bandidos. Mataram a mãe e o pai de Jack e o deixaram vivo por algum motivo. Ele tem um irmão mais velho que estava viajando na época. Para evitar que fosse enviado para um orfanato, Ethan lutou para obter a guarda de Jack.
— E onde está o irmão dele?
— Ethan não tinha trabalho e não sabia como sustentar a si e ao irmão. Acabou se envolvendo com traficantes e entrou para uma organização criminosa. Exportava drogas para outras cidades e, em uma dessas viagens, foi pego com o caminhão cheio. A polícia o prendeu, e a mercadoria foi apreendida, o que não agradou seu "chefe". A pena dele é de dez anos, e quando sair, seria morto pela mercadoria perdida se Jack não tivesse assumido sua dívida, é claro.
Agora tudo fazia sentido. Paulo estava cobrando a dívida do irmão de Jack, por isso ele precisava do dinheiro das lutas.
— E se ele não conseguir o dinheiro?
— Será morto. Mas, sabes o que é irônico? Nunca o vi lamentar-se. Pelo contrário, parece mais forte a cada dia que passa, e quem ousa sentir pena dele perde um dente – ela riu sem humor, e eu cobri a boca com as mãos.
— Ele já sofreu demais nessa vida difícil, e mesmo em silêncio, tentando manter-se forte, sei que ainda sofre muito – ela deixou uma lágrima escapar, mas logo a enxugou rapidamente e segurou minhas mãos.
— Você faz bem a ele, consigo ver isso. Ele não precisa que o salve, pois nem ele mesmo consegue. Apenas precisa que dê cor aos seus dias cinzentos – ela sorriu.