Act one.

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Repasso a lista de compras na cabeça para impedir que o sono me faça desmaiar enquanto termino de encerar o chão. A luz da lua não é forte o suficiente para iluminar o lugar, então me guio às cegas pelo salão enquanto dou os toques finais antes de poder ir ao hospital.

O silêncio me acompanha enquanto termino, indicando que Liz já foi embora, pois se ela ainda estivesse aqui, estaria reclamando de como seu esmalte não combina com o uniforme de garçonete que a Sra. Miller nos obriga a usar.

Quando termino, meus joelhos estão vermelhos e doloridos de ficar ajoelhada, e me levanto com dificuldade.

Odeio sextas-feiras.

É o meu dia de fechar a lanchonete, e além de ter que ficar por último e fechar tudo, às sextas a Sra. Miller apaga as luzes quando o último cliente sai, geralmente às 22 horas. Não podemos usar nada que seja elétrico, pois, segundo ela, a companhia de luz cobra mais caro exatamente nesse dia e nessa hora.

Sei que é mentira; é só mais um jeito de me irritar, mas não me dou o luxo de reclamar. Preciso desse emprego e das gorjetas que ganho por usar uma saia com medidas muito reveladoras.

Me arrastando, vou até o vestiário me trocar.

Além de ter que fechar e limpar tudo, hoje ainda tenho o turno da noite no hospital, o pior turno de todos. Parece que no final da semana, quando todos vão descansar e relaxar depois de 5 dias difíceis, é quando a maioria das pessoas tem ideias idiotas que acabam as levando bêbadas no pronto socorro e vomitam no lugar todo, e é claro, pra quem que sobra  limpar tudo? Euzinha, a faxineira desastrada com problemas nos pulmões.

Na minha primeira semana trabalhando no Hospital Central de Newcastle, uma colega me disse que devia limpar todos os banheiros e lugares que cheiram mal, pois de acordo com ela, como tenho problemas nos pulmões eu não sentiria o cheiro.

Depois de pronta, começo a trancar as portas e fechar as janelas, saio pela porta de frente, e subo no vaso de plantas que fica na frente da loja para colocar as chaves no vão da janela acima da porta, jogo as chaves lá e desço.

Liz que se vire amanhã para alcançá-las.

As ruas estão barulhentas, mas incrivelmente vazias. A lanchonete fica em um lugar perto do centro de boates da cidade; as ruas nunca ficam cheias por aqui, sempre tem um bêbado ou outro se arrastando pelos becos.

Apertando o casaco em volta do meu corpo, atravesso até a praça com uma sacola na mão.
De longe, vejo uma silhueta masculina sentada em uma pequena mesinha. Em sua frente, um inconfundível tabuleiro de xadrez.

O vento tira os fios amarrados do meu rabo de cavalo enquanto faço uma caminhada rápida até Harry.

Ele parece muito concentrado no jogo para me notar, mas mesmo assim me sento no banco à sua frente. Ele levanta os olhos para mim e depois para a bolsa que coloquei na mesa, me ignora e volta a olhar o jogo.

- O que quer menina? - diz movendo o cavalo pelo tabuleiro - Não devia estar em casa?

Apoiando os cotovelos na mesa, eu vejo a hora. 23:56; tenho 24 minutos até meu turno começar, e 5 horas e 24 minutos até o fim dele.

Sorrio para Harry e empurro a sacola com seu jantar para mais perto do mesmo.

- Hoje é sexta. - eu começo - O que significa que tenho turno até mais tarde hoje, e esse semestre peguei a faxina no hospital até as 5.

Ele bufa

- Menina horrível...

- E também significa que fico com as sobras que Lafayette deixa na cozinha.

Secrets, lies and hope Histórias para pegar e não largar. Descubra agora