Não é agradável.
Não... sei, intimamente, se sou forte o bastante para lidar com tudo isso. Para fazer... isso.
Não me engano. Eu sei da minha força. Sei quem eu sou. Sei tudo o que sou. Sei o que... somos. Mas isso parece demais até mesmo para mim. Eu não transpareci aquela insegurança. Jamais seria vista como fraca perante um ministro de Acalla.
— É um plano ousado, se quer saber. Se você provar as acusações que faz... — Nem Salazar era capaz de pensar em palavras para descrever o caos que se instauraria sobre Acalla. — Está mesmo disposta a arriscar tanto?
— Não se engane, ministro, ser exilado é ser um só. Você não imagina as batalhas que eu travaria pelo meu povo. As batalhas que eles já travaram por mim. Estou disposta a ceder até o último resquício do meu poder ancião para fazer isso. Mesmo que ele se esvaia. Mesmo que eu morra. É um preço pequeno a se pagar pela libertação do meu povo. A nossa salvação da extinção iminente depende disso.
De fato. A magia que estávamos prestes a performar era algo que cobraria tudo o que eu tinha a ofertar. Eu me entregaria à performance. Ao ministro de Acalla, sobretudo, eu entreguei a certeza de que eu não me arriscaria tanto por uma mentira. Em meio ao breu da floresta escura, eu sequer enxergava sua silhueta, de modo que eu mesma não devia estar sendo vista por Salazar. Mesmo sem enxergar qualquer mínima parte de mim, ele sentiu a certeza que eu exalava. Minhas ações estavam firmadas nos nossos ideais. Me sentei sobre o chão úmido em meio ao isolamento completo da floresta escura, as solas dos meus pés descalços se tocaram me forçando a manter os joelhos afastados e as pernas abertas, uma posição necessária para manter o fluxo de magia correndo livre por todo o meu corpo. As mãos com as palmas pressionadas uma contra a outra, uma por cima, outra por baixo, simbolizando o ciclo do tempo que nunca se finda e, mais que isso, se sobrepõe. Salazar tentou me alertar sobre uma outra situação:
— Estes ataques... os tais... Executores da Nação Exilada. Liera pretende uma convocatória oficial à regência das três nações para discutir o assunto em breve. Esteja preparada, Leona.
Ignorei. Ordenei:
— Comece.
Salazar emanou uma onda de energia crescente, capaz de ser sentida por toda a Floresta da Fronteira. Suas palavras canalizaram a magia em expansão:
— Força estranha é o tempo, que não age como fluxo único. Dois pontos na existência que se sobrepõem, sem passado ou futuro. Tudo é presente, tudo se faz presente...
Uma verdadeira constelação de incontáveis runas do tempo cravejava o chão da floresta. Outras inúmeras estavam cravadas nos troncos de tantas árvores quanto a floresta podia conter. Se alimentando da energia advinda de Salazar, uma a uma as pedras se acenderam. Primeiro com o brilho opaco semelhante ao do sol entre densas nuvens.
— Não como porta que se abre à passagem. Não como véu a ser rasgado. Não como rio que corre em busca de águas abertas. Como terra que tem memória e se acumula em camadas. Como substância que forma a matéria que existe...
Sua voz falhou. A performance estava exigindo demais dele próprio. Uma nova cicatriz cortou sua testa com tamanho esforço. Salazar, no entanto, não desistiu e entregou mais de sua própria energia a uma causa da qual ele sequer fazia parte.
— Como solo que viu, como árvore que ouviu. Como testemunha passiva incapaz de intervir, mudamos o tempo presente para que no novo presente...
As runas do solo brilharam em tons terrosos, absorvendo para si a materialidade dos elementos substanciais. As que tocavam os vegetais adquiriram um verde intenso como as folhas geralmente adquiriam na estação das águas.
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Acalla
خيال (فانتازيا)Três nações disputam poder em um mundo mágico tomado por guerras políticas. Quando vê sua nação ameaçada, a rainha de Acalla, Liera, se encontra em um impasse entre cumprir com as imposições que limitam sua capacidade de liderança, ou assumir as con...
