O silêncio que seguiu o último confronto era pesado e denso. George estava no chão, ofegante, enquanto Mel se aproximava, tentando ajudá-lo a se levantar. Thomás ainda estava inconsciente, seus poderes sugando a maior parte de sua energia. E Luna... estava ali, parada diante de mim, como uma estátua imponente, esperando por minha escolha.
— Luna... — minha voz saiu fraca, mas firme. — Por que está fazendo isso? Você já foi uma de nós. Por que mudou tanto?
Ela desviou o olhar por um breve momento, algo que eu não esperava. Por trás daquela fachada impenetrável, havia algo que eu não conseguia identificar. Então, com um suspiro pesado, ela falou.
— Você não entende, Rolly. Eu não tenho escolha.
Suas palavras me atingiram com força. Algo estava acontecendo com ela, algo muito mais profundo do que eu imaginava. Ela estava agindo como uma máquina implacável, mas agora eu começava a perceber que talvez ela também fosse uma vítima.
— Como assim, não tem escolha? — perguntei, dando um passo à frente, ignorando o perigo.
Ela me encarou, e pela primeira vez desde que a conheci, vi algo em seus olhos que parecia ser... dor. Uma dor profunda e oculta.
— Eu fui criada para isso, Rolly. Eu sou como um peão nesse jogo. Eles me fizeram assim.
Antes que pudesse entender completamente suas palavras, vi um leve brilho em seus olhos. Então, a cena ao meu redor começou a distorcer, e de repente, fui arrastada para o passado.
Flashback: O Passado de Luna
A primeira coisa que senti foi a opressão do ambiente. Estávamos em um laboratório sombrio, cercado por paredes metálicas e frias. No centro da sala, uma pequena garota estava sentada, com fios conectados à sua cabeça e braços. Eu imediatamente reconheci Luna, mas ela parecia muito mais jovem, talvez com dez anos. Seus olhos estavam vidrados, como se ela estivesse em transe.
Ao redor dela, cientistas murmuravam entre si, trocando anotações em pranchetas. Um homem em um jaleco branco se aproximou de Luna, falando em um tom que transbordava autoridade.
— Inicie o procedimento de controle neural. Precisamos garantir que ela não desenvolva uma vontade própria.
Eu observei, incapaz de me mover ou de fazer qualquer coisa, enquanto eles ativavam uma série de máquinas. Fios de luz atravessavam o corpo de Luna, e eu vi seu pequeno corpo se contorcer de dor, mesmo que ela não gritasse. Seus olhos pareciam vazios, como se a verdadeira Luna estivesse sendo apagada.
— Excelente. A fase um está completa, — disse o homem, sorrindo para os outros cientistas. — Agora, ela vai fazer exatamente o que mandarmos. Sem perguntas. Sem resistência.
O horror daquilo tudo me atingiu como uma onda. Eles a estavam transformando em uma marionete. Luna não tinha sido uma traidora por escolha; ela havia sido moldada para isso, controlada desde a infância. Eu comecei a entender o peso de suas palavras.
A visão mudou rapidamente, como se estivesse avançando no tempo. Agora, Luna era uma adolescente, mais forte e letal. Ela estava em uma sala de treinamento, enfrentando oponentes com facilidade, sua precisão implacável. A mesma equipe de cientistas a observava.
— Ela está pronta, — disse o homem de jaleco branco, que agora eu reconhecia como alguém muito próximo da organização por trás de tudo. — Podemos usá-la para rastrear e capturar outros como ela.
Enquanto eu observava, percebi que cada movimento de Luna era mecanicamente perfeito, mas vazio. Não havia mais emoção. Não havia mais vida. Ela era apenas uma arma.
De repente, a visão mudou para uma sala escura, e desta vez, Luna estava de pé em frente a um monitor, onde uma silhueta sombria falava com ela. A voz era fria, cruel.
— Você fará o que eu mandar, ou eles morrerão. — A silhueta ameaçava. — Lembre-se, Luna. Você vive porque nós permitimos. E a qualquer momento, isso pode mudar.
Foi aí que percebi. Luna não estava apenas sendo controlada fisicamente, ela também estava sendo ameaçada constantemente. Aqueles que a criaram haviam aprisionado sua mente e sua vida em um ciclo interminável de obediência. Tudo o que ela fazia era para proteger alguém — ou algo — que eu ainda não entendia completamente.
Fim do Flashback
A visão se dissipou, e de volta ao presente, vi Luna ainda parada na minha frente, mas agora seus olhos estavam diferentes. Havia um brilho de humanidade neles que antes parecia ter desaparecido.
— Eles me usaram, — ela sussurrou, como se confessar isso fosse doloroso. — Me transformaram em uma arma. E se eu desobedecer... eles vão machucar as poucas pessoas que me restam.
Eu fiquei em silêncio por um momento, absorvendo tudo o que havia acabado de ver. Luna não era o monstro que eu pensava. Ela era uma vítima, tanto quanto eu. E, de repente, todo o meu ódio por ela começou a se transformar em empatia.
— Luna, — falei suavemente, tentando me aproximar. — Você não precisa continuar fazendo isso. Podemos encontrar uma maneira de te libertar desse controle.
Ela balançou a cabeça, com lágrimas começando a escorrer pelo rosto. Era a primeira vez que eu via Luna realmente chorar.
— Não é tão simples, Rolly. Eles controlam cada aspecto da minha vida. Se eu tentar escapar, eles vão me caçar... e vão caçar vocês também.
George, agora de pé novamente, se aproximou, sua expressão suavizando.
— Não precisamos enfrentar isso sozinhos, Luna. Somos mais fortes juntos. Sabemos que você não queria fazer isso, e se há uma forma de lutar contra eles, vamos descobrir.
Mel e Thomás, que finalmente começavam a recobrar a consciência, se juntaram ao grupo. Todos nós estávamos ali, oferecendo a Luna uma chance de redenção.
— Não sei se posso ser salva, — ela murmurou, olhando para o chão. — Mas... se houver alguma chance... eu vou tentar.
E assim, o que começou como uma batalha entre amigos e inimigos tornou-se um esforço para libertar não apenas a nós, mas também a Luna. Sabíamos que a luta seria difícil, e que aqueles que a controlavam não desistiriam facilmente. Mas, pela primeira vez, Luna parecia ter esperança.
E com isso, a batalha de verdade estava apenas começando.
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A Outra Face De Um Imortal
RandomToda a história tem duas versões, a moeda tem dois lados, na balança tem dois pesos e na vida, as vezes as pessoas tem duas caras, principalmente as pessoas que convivem conosco todos os dias, essas são mais misteriosas, por mais que você pense que...