Exatamente às 10 horas da manhã, a aula chega ao fim. A maioria dos alunos já estava com o material guardado nas mochilas, e assim que a professora encerra, eles saem rapidamente. Eu, por outro lado, ainda estava terminando de copiar a matéria no caderno. Não tinha pressa. Minha mente estava longe, distraída com o que aconteceu no início da aula. Aquelas palavras misteriosas no caderno... Será que estava apenas imaginando coisas?
Assim que termino, levanto devagar e saio da sala, caminhando pelos corredores que agora estavam praticamente vazios. Mas, enquanto ando, escuto novamente a voz sussurrando meu nome. O som me provoca arrepios, mas escolho ignorá-lo desta vez. Deve ser só a minha mente pregando peças, penso, tentando me convencer.
No caminho, paro perto do bebedouro e vejo Mel enchendo sua garrafinha de água. Sorrio ao vê-la, me aproximando de fininho e tirando um dos fones do ouvido dela.
- Mel, o seu prédio ficou sem água de novo? - pergunto, rindo. Ela me lança um olhar meio frustrado, o que já confirma minha suspeita. Sorrio mais ainda, enquanto ela balança a cabeça em desânimo.
- Não me lembra disso, sério! Eles prometeram que iam resolver hoje... - responde, revirando os olhos.
Saímos juntas do prédio e seguimos em direção ao campinho onde ficam os trailers de comida. Ao chegarmos lá, avistamos Thomás e George já sentados em uma das mesas.
- Guardaram nossos lugares? - pergunta Mel, já se sentando ao lado de Thomás e pegando seus óculos para limpar, uma coisa que ela faz constantemente, mesmo sem necessidade.
- Sim, mas mesmo que não tivéssemos guardado, vocês iam sentar aqui de qualquer jeito - responde George, dando de ombros e sorrindo de leve. Sento-me ao lado dele, coloco minha mochila sobre a mesa e tiro o celular do bolso, começando a olhar as notificações acumuladas.
- Seu pai te ligou várias vezes! - comenta George, espiando a tela do meu celular sem a menor cerimônia. Rapidamente, puxo o aparelho para fora do campo de visão dele e o olho com um olhar de repreensão.
- E por que você estava olhando o meu celular? - pergunto, tentando manter um tom calmo, mas claramente irritada.
- Calma, foi sem querer! Desculpa, Rolly. Mas... por que o nervosismo? - Ele tenta se explicar, mas sinto que sua curiosidade foi além do aceitável.
- Não estou nervosa, mas é algo chato, George. E se eu estivesse abrindo uma mensagem pessoal? - respondo, mais firme. Ele desvia o olhar, pega sua lata de refrigerante e toma um gole, sem insistir na conversa.
Olho para frente e percebo que Mel e Thomás estão me encarando de um jeito curioso, como se estivessem esperando que eu dissesse algo. Será que eles notaram o meu desconforto? Respiro fundo, pego minha mochila de volta e me levanto.
- Vou indo. A gente se vê depois - digo rapidamente, acenando para eles e saindo do trailer. Meu coração ainda estava acelerado, uma mistura de irritação e ansiedade. Por que meu pai me ligou tantas vezes?
Assim que me afasto, pego o celular e ligo para ele. Mas antes mesmo que eu pudesse perguntar o motivo das ligações, vejo seu carro estacionado fora da universidade. Ele baixa o vidro e me faz um sinal para entrar. Sem pensar muito, obedeço, entrando rapidamente. Assim que fecho a porta, ele acelera, dirigindo em silêncio, rápido demais.
- Desculpa por não atender, estava na aula - digo, tentando quebrar o silêncio.
- Tudo bem - responde ele, sem sequer me olhar. Seu rosto estava sério, focado, como se houvesse algo muito importante pesando em sua mente.
Durante o trajeto, fico quieta, observando as ruas pela janela. O laboratório dele não era longe da universidade, então chegamos em poucos minutos. Mas o clima dentro do carro estava estranho, tenso. Assim que saímos do carro, percebo que ele está mais ansioso do que o normal. Seguro sua mão enquanto caminhamos para dentro do prédio, mas ele quase não reage.
Será que algo deu errado nos experimentos? Ou ele descobriu algo sobre mim que não quer compartilhar?
Dentro do laboratório, tudo está como de costume. O ambiente branco e estéril, as luzes fortes, o cheiro de produtos químicos. Mas, por alguma razão, hoje aquilo parecia mais opressor. Meu pai não diz nada, apenas me guia até uma das salas privadas, onde ele sempre faz os exames de rotina. Tento ignorar o nó na garganta que se forma toda vez que entro naquele lugar.
Enquanto meu pai passava o dia no laboratório, trabalhando e, de certa forma, me monitorando, minha mãe estava no escritório, cercada de pilhas e mais pilhas de papel. Nos últimos tempos, ela parecia sobrecarregada. No início, amava seu trabalho, mas agora, os constantes problemas e reclamações dos clientes pareciam drená-la. Ela nunca disse nada, mas eu podia ver que algo mudou. O brilho nos olhos dela ao falar sobre sua profissão não era mais o mesmo.
Tentei perguntar algumas vezes, mas sua resposta era sempre a mesma:
- É só uma fase, querida. Eu dou conta. Não se preocupe.
Porém, eu me preocupava. Porque, assim como meu pai, ela também guardava segredos. Talvez não do mesmo tipo, mas segredos que, um dia, também viriam à tona.
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A Outra Face De Um Imortal
RandomToda a história tem duas versões, a moeda tem dois lados, na balança tem dois pesos e na vida, as vezes as pessoas tem duas caras, principalmente as pessoas que convivem conosco todos os dias, essas são mais misteriosas, por mais que você pense que...