Portas Abertas

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Eu pisquei, confusa. Como é que alguém grita só com o pensamento?

— Como assim, gritar? — perguntei, tentando controlar o medo que subia, misturado com raiva.

— Você pensa muito alto — ele disse, com um tom baixo, quase entediado, mas com um peso estranho em cada palavra. — Pensa com muita força. É difícil explicar... mas é como se estivesse gritando dentro da sua cabeça, só pra conseguir escutar o que pensa. Como se precisasse convencer seus próprios ouvidos do que está pensando, porque você não consegue escutar direito.

Fiquei olhando para ele por um instante, tentando entender. O que ele queria dizer com isso? Como eu poderia gritar dentro da minha cabeça só pra escutar um pensamento? E por que ele acha que eu não consigo escutar? Eu escuto perfeitamente...

— Você não escuta — respondeu ele, como se tivesse escutado isso também. — Se escutasse, conseguiria saber o que eu estou pensando.

— Eu poderia?

"Se eu conseguisse saber exatamente o que aquele homem está pensando..." Interrompi o pensamento no mesmo instante. A sensação era incômoda, como se uma mão invisível estivesse prestes a arrancar de mim tudo o que eu ainda não queria dizer nem para mim mesma. Pense em outra coisa. Qualquer coisa.

— Por que se recusou a pensar? — Nunzio inclinou a cabeça, tentando esconder um brilho nos olhos. Havia uma satisfação ali, como se ele tivesse confirmado algo.

— Eu não queria que você escutasse.

— Mas você sabe o que iria pensar, mesmo não "pensando" de fato.

— Sei, porque é impossível não pensar.

— Mas eu não escutei. Entendeu?

Agora sim. Era como manter algo secreto dentro de mim, mesmo que ainda estivesse lá. Como se eu tivesse guardado um segredo debaixo da língua.

— Tente esconder um pensamento — ele sugeriu com um sorriso preguiçoso.

Minha cor favorita é... azul.

— Sua cor favorita é rosa?

Sorri. Ele errou. — Não — respondi, satisfeita com a minha pequena vitória. Ele riu também. Por um instante, o clima pareceu leve demais para o que éramos. Ou para onde estávamos.

Eu acho que Nunzio é... insuportável.

— Você acha que eu sou um vilão.

— Acertou, escutou meus pensamentos? — menti, fingindo surpresa.

— Você é muito previsível. Mas isso só está dando certo porque eu não quero escutar. Se eu quiser, posso forçar sua mente a se abrir... navegar por ela. E então saberei exatamente o que você tentou esconder. Então, não se confie.

E minhas esperanças são esmagadas.

— Eu também quero escutar o que você pensa. É justo.

— Você pode tentar. Posso ensinar. Vai ser difícil, mas com o tempo se tornará tão fácil que será como respirar. Então peço toda a paciência que você não tem.

— Não prometo nada.

Ele suspirou, e um sorriso se desenhou no rosto dele. Um sorriso que me desarmava e me confundia. Ele sorria muito, mas nunca era o mesmo sorriso. Às vezes parecia o de um carrasco que brincava com sua presa, às vezes... quase humano demais.

— Certo. Sente-se com as pernas cruzadas e me dê as mãos.

Por que dar as mãos?

— Você tem que aprender a se concentrar primeiro.

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