Sem Barreiras

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O silêncio pesava como chumbo. Tudo parecia... suspenso. Era como se o mundo inteiro estivesse segurando a respiração comigo.

Por um instante, achei que fosse desabar. Mas não. Eu apenas deitei. Me deixei cair para trás, os olhos fixos no teto. Não havia mais presença dele no quarto, mas a ausência doía mais. Porque agora... agora eu não tinha para onde olhar. Não tinha nada para odiar. Só restava aquilo que eu vinha escondendo de mim.

Eu perdi a guerra.

O pensamento me atravessou com a frieza de uma lâmina. Por mais que eu tentasse negar, esconder, resistir... essa era a verdade. Eu fui à guerra. E perdi. Fui derrotada. Capturada. E ninguém veio me buscar.

Selena...

A imagem dela apareceu com uma força brutal. Os olhos dela tentando se manter abertos, a respiração falhando. Sangue demais. Calor demais. E eu... com ela nos braços. Era para ela viver. Não eu. Ela tinha luz. Eu só tinha raiva.

Fechei os olhos com força. Mas as lágrimas vieram mesmo assim, ardendo como se fossem feitas de alguma substância corrosiva. Eu tentei segurar. Por dias, por semanas, talvez por meses. Mas agora não dava mais.

Solucei. Um som feio, desgovernado. Engasguei com a própria respiração e me sentei na cama, apertando os joelhos contra o peito.

Ela morreu... e eu nem sei se alguém enterrou o corpo dela.

E Levi...

Levi.

O nome dele bateu no meu peito com uma violência absurda. Onde ele estava? Estava vivo? Estava morto? Será que me procurou? Será que chorou?

Será que desistiu de mim?

Ele me amava. Eu sei que amava. E eu... eu também amava. Talvez tenha escondido isso atrás de promessas, de estratégias, de medo. Mas era amor. Era real. E agora, ele podia estar morto, destruído.

E se ele acha que eu morri? E se ele seguiu em frente?

Cada pergunta me abria uma ferida nova. Eu estava caindo em pedaços. E, no fundo, acho que já estava assim fazia tempo. Mas agora era impossível ignorar.

Foi então que eu soube. Não podia mais ficar ali. Não podia esperar por respostas que nunca vinham. Não podia esperar ele decidir o que fazer comigo.

Eu vou sair daqui.

Me levantei. As pernas meio trêmulas, mas firmes o suficiente. Descalça, fui até a porta. Não estava trancada. Não sei se foi burrice ou provocação da parte dele. Mas isso não importava. O importante é que eu saí.

O corredor era o mesmo de sempre. Silencioso, limpo demais. Tudo naquela ordem asséptica me dava náusea. Comecei a andar. Um corredor. Três portas. Abri uma — armário de limpeza. A segunda — um escritório velho. A terceira... meu quarto.

O quê?

Fechei a porta com força. Dei meia-volta. Virei à esquerda. Corredor. Três portas. As mesmas.

Não.

Comecei a andar mais rápido. Virei à direita, depois à esquerda, depois subi uma escada. Corredor. Três portas. Sempre as mesmas.

Isso não tá acontecendo.

Corri. Corri sem parar. Mas cada curva me trazia de volta. Era como estar dentro de um espelho quebrado. Como se o tempo e o espaço estivessem rindo da minha cara. Como se ele estivesse rindo da minha cara.

Entrei numa sala, ofegante. Um lugar cheio de livros. Poeira. O cheiro de papel velho. Nada familiar. Mas ali tinha algo... fora do lugar.

Um abajur. Rosa.

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