Na minha primeira visita quando ela estava internada eu levava comigo um presente que nunca consegui entregar. Era um dos meus livros favoritos, "O Alquimista". Eu tinha todos os motivos para não ter certeza se entregaria o livro: a relação parecia perto do fim e ela não gostava do meu gosto literário. Ainda sim, eu comprei o livro, coloquei post its e marquei o trecho que dizia:
"– O deserto leva nossos homens e nem sempre os traz de volta – disse ela. – Então nos acostumamos com isto. E eles passam a existir nas nuvens sem chuva, nos animais que se escondem entre as pedras, na água que sai generosa da terra. Eles passam a fazer parte de tudo, passam a ser a Alma do Mundo.
"Alguns retornam. E então todas as outras mulheres ficam felizes, porque os homens que elas esperam também podem voltar um dia. Antes eu olhava estas mulheres, e invejava sua felicidade. Agora vou ter também uma pessoa para esperar.
"Sou uma mulher do deserto e me orgulho disto. Quero que meu homem também caminhe livre como o vento que move as dunas. Quero também poder ver meu homem nas nuvens, nos animais e na água.""
Abaixo eu tinha escrito que estaria esperando ela como uma mulher do deserto fazia... e de certa forma foi o que eu fiz. Via ela no verde, nas peças da casa que escolheu, nas receitas de chocolate que inventei...
Só que eu terminei com ela e não entreguei o livro.
Na semana do meu aniversário eu recebi a clássica mensagem lembrando da morte do meu avô enquanto processava o luto do relacionamento. Ainda era lembrado das minhas cruzadas pessoais, daquelas batalhas que nos tiravam de um hangar e nos faziam lutar.
Problemas para resolver e uma empresa para carregar aliadas ao luto me fizeram entrar em quase um estado de apatia. De repente, nada importava. Apenas meu trabalho, meu avô, as metas que preciso bater sozinho e o mapa que se abriu.
Mas eu não poderia sair daqui sem ter certeza que voltaria. Por isso dei entrada naquele apartamento.
Acredito que se eu não consegui superar o que está por vir nos próximos 2 anos o melhor que eu possa fazer é ir no caminho do suicídio. Porém, não tem porque pensar nisso agora, ainda tenho recursos, tempo e foco. Assim como um samurai, prefiro cometer Sepuko do que falhar, mas eu não vou falhar.
Eu sei que quando eu voltar não vai ter nenhuma mulher do deserto me esperando. Todas que já foram meus amores vão estar com outra pessoa, porque como diria a máxima da geopolítica: "não existe vácuo de poder".
E tudo bem. Dentro de uma vida cabe várias e ainda amo o suficiente para estar ali garantindo que ela esteja bem enquanto eu lido sozinho com tudo.
Não é bom que ninguém perca tempo comigo, principalmente uma mulher que vê a sociedade tratando ela pior a medida que ela envelhece.
De tudo que eu escrevi, acho que isso é o que eu mais espero que ninguém leia...
Meus 10 anos de criatividade vão passar pelos 3 ou 2 mais turbulentos. Estou animado para passar alguns fins de semana trabalhando.
A partir de hoje, nada de mulheres ou álcool. A partir de hoje, só quero deixar aquele velho orgulhoso, mesmo que a gente nunca tenha trocado uma palavra.
