+1

408 51 26
                                        

━━━ +1  ━━━━━━━━━━━━━


  
                  STEVE ficou diante do espelho do quarto em Manhattan, os ombros ligeiramente curvados, a gravata entre os dedos enquanto a ajustava lentamente. O tecido frio deslizava por suas mãos, mas não era apenas isso que ele sentia.

Era a sensação de ausência que preenchia o ar, um vazio silencioso que o seguia há dias. O reflexo diante dele mostrava mais do que um homem se preparando para um evento formal; mostrava um filho prestes a se despedir da mãe.

Sarah havia partido da forma mais serena possível. Os últimos meses em estado paliativo testaram cada fibra do seu ser, mas, de alguma maneira, ela viveu mais do que todos os prognósticos médicos apontaram. Mais do que Steve imaginou que ela poderia. Mais do que ele e Ethan esperavam.

Joseph, sempre presente, havia reivindicado seu lugar na empresa para ficar ao lado dela, garantindo que Sarah não deixasse de realizar sonhos que guardava silenciosos no peito. Paris com suas luzes cintilantes e cafés aconchegantes, os canais de Amsterdã, as ruas históricas da Bélgica, o calor de Malta, a imponência do Egito... ela conheceu o mundo, provou culinárias desconhecidas, e descansou. Viveu.

Steve respirou fundo, o ar gelado do apartamento misturando-se com o cheiro de sua colônia e do tecido da gravata. Sentiu uma pontada no peito, uma mistura de saudade antecipada e gratidão. Ele sabia, sem sombra de dúvida, que sentiria falta de sua mãe todos os dias. Mas também sabia que ela havia sido feliz, que tinha reencontrado o seu filho que acreditava estar morto, tinha visto a neta crescer, mesmo que por menos de dois anos. Que tinha amado, rido, viajado e descansado.

O reflexo no espelho mostrou-lhe o homem que precisava ser. Forte, contido, mas vulnerável por dentro. Ele respirou novamente, fechando os olhos por um instante, sentindo a textura da gravata em seus dedos, o peso da memória de Sarah, o calor silencioso da lembrança de sua voz.

E então, com um último ajuste, ele endireitou os ombros. Era hora de sair. Era hora de despedir-se, honrar, amar.

Ao retornar para o quarto, ao notar a ausência de Natasha, ele a chamou. Ele ergueu seu pulso e pontuou as horas, percebendo que ela estava demorando mais do que o habitual, algo praticamente impossível.

— Nat? — chamou de novo, a voz carregando leve impaciência.

O silêncio que se seguiu fez o coração dele apertar. Preocupado, bateu duas vezes na porta do banheiro.

— Tá tudo bem aí?

A porta se abriu devagar. Natasha surgiu vestida com um conjunto de alfaiataria preto, impecável, maquiagem leve destacando o olhar e os fios ruivos alinhados abaixo dos ombros, mas havia algo diferente nela.

Algo que ele notou muito bem: a tensão nos ombros, a leve rigidez na postura... ele a conhecia bem o suficiente para saber que aquilo não tinha nada a ver com o velório de Sarah.

— Acho que você vai precisar me dizer se está tudo bem ou não — disse ela, a voz controlada, mas carregada de significado. Steve sentiu a confusão se instalar imediatamente.

Ela abriu a porta um pouco mais, quase convidando-o a entrar. Ele hesitou, então entrou, seus olhos percorrendo cada detalhe do corpo dela, procurando qualquer pista do que estava acontecendo.

— O que está acontecendo? — a voz dele saiu séria, firme, mas com uma ponta de preocupação.

Natasha se encostou à pia, cruzando os braços, respirando fundo, os pulmões trabalhando para manter a calma, mas falhando um pouco. Havia ansiedade nos movimentos mínimos: no apertar das mãos, no bater de um pé contra o chão.

𝐋𝐈𝐄𝐒 𝐚𝐧𝐝 𝐒𝐄𝐂𝐑𝐄𝐓𝐒 | ✓Onde histórias criam vida. Descubra agora