CAPÍTULO 45

11 3 58
                                        

“Se ao menos conseguíssemos enxergar as infinitas cadeias de consequências que resultam das nossas pequenas decisões. Mas só percebemos tarde demais, quando perceber é inútil.”
(Quem É Você, Alasca? – John Green)

O RELÓGIO MARCAVA POUCO mais de seis e meia da manhã, mas Leonardo já estava no colégio. Na verdade, nunca chegou a sair. Dormir no internato significava que o BSL era mais do que uma escola — era um refúgio disfarçado de prisão.

Sentado sozinho em uma das poltronas da biblioteca perto da janela, com a mochila jogada no chão e os fones no colo, ele encarava o teto alto e branco, como se dali pudesse cair alguma resposta que ainda não tinha.

Do lado de fora da parede envidraçada, os primeiros alunos começavam a ocupar os jardins e os corredores centrais.

Todo mundo parece saber o que está fazendo aqui, menos eu.

A última mensagem de Maddison piscava no visor, mas ele ainda não havia respondido. Era algo sobre um evento do grêmio, talvez uma reunião com a diretora. Ele nem sabia ao certo. Tudo parecia tão... abafado.

Por que tudo que ela fala soa como ruído agora? Não era assim no começo. Ou talvez eu só estivesse tentando me convencer de que não era.

Levantou-se devagar e caminhou pela ala leste do colégio, onde quase ninguém passava naquele horário. Era ali que gostava de pensar — ou pelo menos tentar. As conversas dos alunos ecoavam ao longe, mas onde Léo estava, só o som dos próprios passos o acompanhava.

Matteo provavelmente já estaria aprontando alguma com os calouros ou rindo alto com os amigos no refeitório. Ele, por outro lado, só queria silêncio.

Desde que Martina havia começado a estudar ali, tudo parecia mais difícil de ignorar. O passado. As decisões mal explicadas. A culpa.

Tini. A marrentinha. A garota que ele amava desde que sabia o que era amor. A garota que ele deixou. Fugiu. Bloqueou. Escondeu dos próprios sentimentos.

E agora agi como se eu não tivesse feito nada... Como se ela fosse a errada da história...

Mas no fundo, ele sabia a verdade. Sabia que o erro tinha sido dele. Maddy era o caminho mais fácil. Mais previsível. Mais... conveniente.

Conveniente não é amor, Léo. E você sabe muito bem disso.

Suspirou fundo, passando a mão pelos cabelos castanhos, tentando afastar os pensamentos. Mas era inútil. Por mais que tentasse seguir em frente, ela estava em todos os corredores. Em todos os olhares que ele evitava. E, principalmente, nos silêncios entre cada batida do seu coração.

Uma porta se abriu a alguns metros dali e, por reflexo, Léo virou o rosto. Não era ela. Ainda assim, seu coração disparou como se fosse. Toda vez que ouvia passos no corredor, algo nele esperava — ou temia — que fosse Tini.

Ela deve me odiar. E eu mereço cada segundo disso.

Ele fechou os olhos por um instante, deixando que a memória o traísse mais uma vez.

O balanço de dois lugares, no jardim da casa da vó Liz, balançava devagar com a brisa morna daquela noite de verão. Era o esconderijo deles — o canto onde promessas pareciam possíveis e o mundo lá fora não tinha pressa.

Léo estava sentado de um lado, os cotovelos nos joelhos, olhando para o chão. Tini, do outro, balançava levemente, com os pés descalços tocando a grama. O silêncio entre eles era pesado, mas confortável. Como se cada um estivesse tentando armazenar o outro na memória.

3. DESTINOS ENTRELAÇADOS: Martina & IsabelaHistórias para pegar e não largar. Descubra agora