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Leonardo

— Eu preciso que leve tudo isso para o cais, não precisamos mais
— Mas e a dona? Não vem mais buscar?
— Nós não temos tempo para isso, camarada.
— Se a dona não veio buscar, nós não podemos fazer nada. O que não falta para nós é trabalho

A tranquilidade que nos acompanhou desde a saída no porto de Bandim, evaporou assim que o barco atracou no cais de Bubaque. Como sempre a chegada deixa os passageiros mais que agitados. Foi o que provocou o diálogo que acontecia anteriormente. Parece que uma passageira acabou esquecendo uma bagagem por conta da agitação do desembarque
Bastante sol como sempre, mas em recompensa a brisa suave deixava tudo na mais perfeita harmonia

Depois que a dona Isabel saiu da minha casa, passou um filme na minha cabeça de uma forma que nem eu sei explicar. Pior foram as sequelas que ela deixou no meu cérebro com as suas palavras; não consegui esquecer nenhuma e ainda ficaram ecoando dia após dia.
Eu tenho consciência de que tudo pode acontecer, assim como não pode. Estou a todo o custo tentando controlar minha expectativa, meus desejos e todo o resto que está me impulsionando agora. Não sei o que esse tempo todo fez nela, se a mudou, se a fez entender o que aconteceu ou ainda o pior, se só serviu para dar razão ao seu medo de se entregar para uma pessoa um dia

Não tenho um roteiro nas mãos para saber o que vai acontecer ou se conseguirei ter o que vim buscar, mas de alguma forma, cá estou eu. Esperando as surpresas que a terra do ... me dará
Nada parecia ter mudado, pelo contrário, parecia que tudo congelou no tempo sem nenhuma folha fora do lugar. Por mais que tinha dispensado a cortesia, meu tio insistiu de todo jeito que queria vir me buscar no porto como se eu já ao tivesse feito esse percurso antes
—Que bom ter você aqui, meu filho - diz num abraço apertado
Devolvo o sorriso de volta antes de responder - É sempre bom estar de volta, tio

— E quem é essa bela jovem? Se vira para a humana ao lado de mim
Eu preferia não comentar sobre esta novidade, mas já vi que não posso fugir disso. Tudo o que posso fazer é responsabilizar a minha mãe
Ela não gostou nada da minha decisão de voltar, fez uma lista de motivos pelo qual não deveria voltar e o principal que ela cita, é que voltei despedaçado e que não queria que o mesmo acontecesse novamente
A verdade é que poderia ter ficado assim em qualquer lugar - claro que isso não é verdade, mas foi o único argumento que consegui fixar na cabeça dela na hora.

Eu apenas queria voltar

Mas ela tinha de fazer alguma coisa, não é mesmo? Simplesmente convidou a filha da sua amiga para vir comigo.
Yolanda. Sim, a mesma do batizado... segundo a minha mãe, ela seria a perfeita companhia para me fazer lembrar que posso voltar a hora que quiser e não mergulhar inconscientemente nos problemas que posso encontrar aqui. Eu nem tive forças para contestar. Se é que iria adiantar mesmo.
Mas a verdade é que ela poderia me mandar com seis bois, não poderia me importar menos.

Minha cabeça só estava aqui. A alegria e o entusiasmo dela também contaram bastante para que isso acontecesse
— Essa é a Yolanda - aponto e ela se aproxima cumprimentando o meu tio - é filha de uma amiga da mamãe, ela vai passar um tempo connosco
— Ah seja bem-vinda querida, você vai amar Bubaque. Já esteve aqui antes?

Os dois se envolvem numa longa e mista conversa que se prolongou até chegarmos em casa
Como disse, nada mudou. Tudo continuou igual pelos vistos. Segundo meu tio, Mário tinha um compromisso e saiu desde mais cedo, por isso não veio com ele
Chegamos em menos de 15 minutos e para a minha deceção, o Mário ainda não tinha chegado, estava com esperança de ainda o encontrar pelo menos aqui. Confesso que estou com saudades daquele cabeçudo. Por enquanto o que me resta é ir arrumando as minhas coisas, colocando tudo no lugar de novo
Fica até impossível voltar a este capítulo sem ter alguns flashbacks de tudo o que passou, da forma como sai daqui naquele dia e todo o resto....
— Posso entrar? - a voz atropela meus pensamentos atrás da porta
— Claro
— E então? Já está se ajeitando?
— Sim, prefiro fazer isso agora, senão corro o risco de deixar tudo na mala por um bom tempo - respondo e ele ri
— Como está sua mãe?
— Ela está bem, tio. Mandou lembranças
— Confesso que quando você ligou dizendo que vinha, tinha esperanças dela vir junto com você
— A minha mãe? - solto uma pequena gargalhada - Do jeito que ela é apegada a sua rotina e as suas coisas? Pode ter a certeza de que ela não volta aqui tão cedo
— É uma pena mesmo - solta um suspiro sentando na cama - Mas sabe meu filho, eu estou muito feliz que você decidiu voltar
Sento ao lado dele na beirada da cama — Eu também tio, eu também. É bom estar de volta
— Olha e vou te contar, chegou na hora perfeita
— Ah é mesmo? Porquê?
— Depois de amanha inicia a feira anual de artesanato
— Nossa faz tempo que não participamos de uma, não é
— Verdade. Por isso me ofereci para ajudar em tudo que for preciso, o pessoal da comissão.
organizadora está contando com a gente
— Com a gente? Tio!! - exclamo sem acreditar

BadjudessaOnde histórias criam vida. Descubra agora