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Leonardo*

Abro a porta de forma que a minha força a faz bater na parede causando um barulho estrondoso

Talvez as coisas precisam ser dessa forma mesmo,não sei, mas poderia começar a me acostumar com a idéia
As palavras ainda pareciam estar presas na garganta, como uma grande rocha impedindo passar qualquer coisa
Sentia me cansado e vencido; a confiança dela era a minha maior cartada dentro desse "jogo". Então nada parece fazer sentido daqui pra frente

— Leonarno? - o dono da voz entra no quarto — Leonardo o que estás a fazer, com essas malas? - Mário arregala os olhos assim que me vê retirando as roupas do armário

— Acha que tenho condições de ficar mais um dia sequer aqui? Sabendo de tudo o que ele fez?

— Eu só acho que estás muito alterado, com a cabeça muito quente. Amanhã estarás mais concentrado e calma e aí sim pensas no que queres fazer - enquanto ele falava, já tinha mais da metade das roupas dentro da mala

— Eu já sei o que quero fazer, já tomei minha decisão Mário

— Eu só espero que saibas bem o que estás a fazer e que mais tarde não venha a se arrepender

Não respondi e continuei arrumando minhas coisas e ele deu as costas saindo do quarto

— Olha eu sei, o que Yuri fez é imperdoável - volta a me encarar — Mas quer mesmo desistir dela assim? A perder dessa forma?

— Eu já a perdi desde o momento em que ela bateu os olhos naquelas fotografias, Mário. Estarei no primeiro barco de amanhã logo nas primeiras horas - minha voz saiu mais trémula do que imaginava e não consigo prender o choro que estava reprimindo desde a hora que abri essas malas
Ele não voltou a falar mais nada até sair do quarto. Mas antes me abraçou forte por alguns segundos tentando me fazer ficar firme de alguma forma

Quando a porta bateu com a sua saída, pude desabar em meio aquele quarto. Não fiz questão de reprimir as lágrimas, deixei elas saírem do jeito como queriam...
Eu não sei como as coisas serão daqui pra frente e nem o que o futuro me guarda. A única certeza que tenho é que preciso me afastar, já não tenho nada me prendendo aqui
Amanhã de manhã estarei no primeiro barco que estiver indo para Bissau
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Salomé*

Caminhei para a casa de banho assim que pus os pés dentro de casa
Sabia que seria impossível não ficar gripada com toda aquela chuva que caiu sobre mim, mas isso era o menor dos meus problemas até agora
Tomo um susto assim que saio da casa de banho vendo a Isaura plantada na porta me esperando com uma toalha aberta

— Que susto - reclamo e ela ignora me embrulhando com a toalha morna

— Eu não tenho mais seis anos - resmungo baixinho pegando ela das suas mãos

— Crianças de seis anos não são as únicas que podem ficar gripadas. Eu vou aquecer leite para tomarmos assim que acabar de vestir

— Não precisa, podes aquecer só pra ti

— Tem certeza? - para no meio da porta com um olhar furtivo — Vai ser com meia colher de café

Sorri de leve — Tudo bem, eu vou querer

Termino de vestir meu pijama mas a corrente de ar fria que passa pela janela me faz não só fechar a janela como usar um moletom por cima. A noite terminaria mais fria do que começou pelos vistos

Sentia uma dor de cabeça inexplicável, queria deitá-la no travesseiro e apagar por dias e de brinde levar embora as memórias deste dia que parece não querer acabar tão cedo

BadjudessaOnde histórias criam vida. Descubra agora