Capítulo 15: A Sombra e o Despertar

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O apartamento de Harvey estava mergulhado em meia-luz, iluminado apenas pela cidade que respirava lá fora. As janelas abertas deixavam entrar o vento frio da noite, e cada sopro parecia carregar uma tensão invisível.

Eu caminhava de um lado para o outro, o coração ainda acelerado pelos últimos acontecimentos. Harvey, por sua vez, permanecia encostado na parede da sala, braços cruzados, me observando em silêncio.

— Você ainda não me contou. — falei, quebrando o peso daquele momento. — Como foi para você? Como conheceu o seu lobo?

Por um instante, os olhos dele brilharam, como se uma lembrança tivesse se acendido. Harvey desviou o olhar, caminhando até a janela antes de responder.

— Eu era um adolescente. — começou, a voz baixa, quase reverente. — Tinha quinze anos, e tudo parecia confuso demais. Eu sentia uma pressão aqui dentro... — ele tocou o peito — ...como se algo estivesse preso e prestes a explodir. Eu sonhava com vozes, ecos, sussurros que não vinham de lugar nenhum. Achei que estava ficando louco.

Ele suspirou fundo, o olhar perdido nas luzes distantes da cidade.

— Foi numa noite de lua cheia. Eu fugi de casa e me perdi na floresta. Estava sozinho, correndo como se algo me perseguisse. Mas quando caí de joelhos, ele apareceu.

Harvey fechou os olhos por um instante. Quando voltou a falar, sua voz estava carregada de peso e respeito.

— O nome dele é Kaelthar.

O som do nome fez minha pele arrepiar. Era forte, antigo, quase sagrado.

— A pelagem dele é negra como a noite sem estrelas. Sem falhas, sem marcas. E os olhos... — Harvey virou-se lentamente para mim. — Azuis. Mas não como os nossos. Azuis como gelo profundo, como se atravessassem sua alma só de te encarar.

Eu mal conseguia respirar.

— Ele me falou pela primeira vez naquela noite. Não com palavras normais... mas como uma voz que ecoava dentro da minha cabeça. Disse que eu não precisava ter medo, que eu nunca estaria sozinho. Desde então, Kaelthar tem sido parte de mim.

Ele fez uma pausa, me observando.

— Você sabia disso o tempo todo? — perguntei, a raiva misturada ao choque.

Harvey manteve o olhar firme. — Mike... nós nos conhecemos há pouco mais de um mês. Eu não achei que nossa ligação fosse acontecer tão rápido. Eu pensei que teria tempo antes de você ouvir o chamado do seu lobo.

Fiquei em silêncio, engolindo seco. Parte de mim queria gritar, queria exigir por que ele tinha escondido isso. Mas outra parte... queria desesperadamente conhecer o meu próprio lobo.

Harvey quebrou a tensão. — Aqui não é seguro. Precisamos ir para minha casa de campo. Lá você terá espaço... e talvez, respostas.

Sem discutir, começamos a arrumar mochilas com o essencial. Documentos, roupas, alguns suprimentos. Harvey se movia com calma fria, mas seus olhos não paravam de vigiar as sombras do lado de fora, como se já esperasse algo.

A estrada até a casa de campo era longa, estreita e coberta por árvores que formavam túneis de sombras. O motor do carro era o único som que nos acompanhava.

Até que não foi mais.

De repente, uma silhueta surgiu bem no meio da pista. Harvey freou bruscamente, e antes que pudéssemos reagir, sombras saltaram dos dois lados da estrada. Homens armados, olhos brilhando sob a lua.

— Segura firme! — Harvey gritou, girando o volante.

O carro derrapou, e em segundos estávamos cercados. O vidro estilhaçou com o impacto de um golpe, e mãos tentaram arrancar as portas. O coração batia como um tambor em meus ouvidos.

Harvey reagiu com instinto mortal. Movimentos rápidos, golpes precisos. Ele parecia lutar não só como homem, mas como algo além. Conseguiu afastar os primeiros atacantes e me puxou para fora.

— Corre! — ele rugiu, e eu obedeci.

Adrenalina queimava minhas veias, mas havia algo mais... algo crescendo dentro de mim. O mesmo peso no peito, só que agora acompanhado de sussurros nítidos, como vozes chamando meu nome.

Conseguimos abrir caminho e escapar. Não sei como, mas estávamos vivos.

Horas depois, chegamos à casa de campo. Isolada, cercada por árvores densas e o silêncio da noite. Harvey desligou o carro, mas ficou imóvel, os olhos fixos na escuridão.

— Eles não vão parar, Mike. — disse em tom baixo, quase um rosnado. — Aquela emboscada foi apenas o começo.

Fiquei parado, ainda sentindo a respiração pesada e os ecos na minha mente. O lobo queria falar. Eu sabia.

E pela primeira vez, tive medo não apenas dos inimigos lá fora... mas do que estava prestes a despertar dentro de mim.


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