O cheiro era o primeiro sinal. Não cheirava a sangue, nem a pólvora, nem àquele odor adocicado de carne podre que aprendemos a associar ao mundo exterior.
Cheirava a café. Café recém-coado, forte e encorpado, misturado com o aroma de panquecas sendo viradas na manteiga.
Abri os olhos. A luz do sol entrava filtrada por cortinas de linho branco, dançando sobre o assoalho de madeira clara. Eu estava deitado em uma cama king size, afundado em lençóis de algodão egípcio que pareciam abraçar minha pele.
Levantei-me, sentindo o chão morno sob os pés descalços. Não havia botas pesadas, não havia o peso do coldre no quadril. Apenas leveza. Caminhei pelo corredor, passando por porta-retratos na parede. Fotos de viagens que nunca fiz: eu e Sara em Paris, nós dois rindo em uma praia na Bahia, ela segurando um teste de gravidez positivo.
— Papai!
Um menino pequeno, de talvez três anos, correu pelo corredor e abraçou minhas pernas. Ele tinha meus olhos e o cabelo loiro e liso de Sara, caindo sobre a testa como uma cascata de ouro. — Leo? — minha voz saiu embargada, cheia de um amor que eu não sabia que cabia no peito. Peguei-o no colo. Ele cheirava a talco e xampu de camomila.
Entrei na cozinha. As paredes eram pintadas de um azul sereno, a cor favorita dela. Sara estava de costas, no fogão, usando apenas uma camisa minha e cantarolando uma música antiga.
— Bom dia, dorminhocos — ela disse, virando-se.
O sorriso dela fez meu coração disparar. Os olhos verdes brilhavam, vivos, inteligentes, sem medo. Não havia sujeira em seu rosto, não havia cicatrizes. Seus cabelos loiros e lisos escorriam pelos ombros, perfeitos, brilhando na luz da manhã.
— Sara... — sussurrei, colocando Leo na cadeira alta. — Eu tive um sonho horrível. O mundo tinha acabado. Havia monstros. Você... você tinha ido embora.
Ela riu, caminhando até mim. O toque de suas mãos no meu rosto era quente e real. — Bobo. O mundo não acaba enquanto estivermos juntos. Foi só um pesadelo. Nós temos a vida toda pela frente. A casa está paga, o Leo vai para a escola ano que vem...
Ela me beijou. Um beijo lento, cheio de promessas. Mas quando ela se afastou, havia algo errado. O sorriso dela congelou. Uma gota vermelha caiu do nariz dela na minha camisa branca. Depois outra. E outra.
— Alec... — a voz dela mudou, tornou-se um gorgolejo úmido. — Por que está tão frio?
A pele dela começou a acinzentar rapidamente. As veias do pescoço saltaram, negras como raízes podres. Os olhos verdes, tão cheios de vida segundos atrás, foram tomados por uma catarata leitosa. Ela abriu a boca para gritar, mas o que saiu foi um rugido. Olhei para o lado. Leo não estava mais na cadeira. Havia apenas uma poça de sangue e ossos pequenos.
— NÃO! SARA!
Acordei gritando, meu corpo convulsionando para frente. Minhas mãos tentaram agarrar o ar, buscando a pele quente dela, mas encontraram apenas tecido sintético pegajoso e frio.
— Alec! Calma! Calma, porra!
Senti mãos me segurando. Abri os olhos, ofegante, o coração batendo tão forte que parecia querer quebrar minhas costelas. O cheiro de café e panquecas desapareceu. Foi substituído pelo fedor denso de cerveja choca, carpete mofado, suor de oito pessoas sem banho e o odor químico de produtos de limpeza baratos.
Eu não estava na casa azul. Eu estava deitado em um sofá de veludo vermelho rasgado, na área VIP da boate Lúxuria.
Jason estava na minha frente, segurando meus ombros. Ele tinha olheiras profundas e uma barba que já cobria o pescoço, muito mais longa do que no dia em que chegamos. — Foi o sonho de novo? — ele perguntou, a voz baixa.
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Projeto Lacrimosa
Fiction généraleUma nova droga, inicialmente tratada como um entorpecente modificado, revela efeitos impossíveis de explicar. Pessoas expostas ao composto entram em estados de violência extrema, perdem funções cognitivas em questão de minutos e... não morrem como d...
