INICIO DO FIM

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O dia seguinte ao pedido de casamento começou... normal demais.

E o "normal" nunca é só normal.
Normal é o tipo de calmaria que parece segurar a respiração antes da tormenta.
Normal, no meu trabalho, era sempre um mau sinal.

Quando cheguei na delegacia, o estacionamento ainda estava úmido da garoa da madrugada. O sol mal tinha subido, mas já tinha gente correndo de um lado para o outro com pastas, relatórios, café e mau humor. Eu respirei fundo, tentando absorver aquele ar de rotina — como se rotina fosse algo que realmente existisse na minha profissão.

Jason estava encostado na porta da viatura.
Starbucks na mão, Jaqueta meio aberta e aquela expressão irritantemente confiante de quem sabe uma informação que você não sabe.

Ele ergueu uma sobrancelha assim que me viu.

— Então?

Eu parei diante dele, segurando as chaves, já cansado antes mesmo de começar o expediente.

— Jason...

— Não enrola — ele se endireitou, vibrando. — Como foi? A resposta foi sim, né?

Eu tentei manter a postura, mas o sorriso escapou de mim como se tivesse vida própria.

— Foi.

Jason comemorou como se tivesse vencido um campeonato.

— EU SABIA! — ele deu um tapa no meu braço, forte demais, como sempre. — Finalmente, cara! Demorou, viu? Você enrolou mais que testemunha com medo de falar a verdade. Travou na hora, travou?

— Eu não travei — menti, do jeito mais patético possível.

Ele gargalhou.

— A Sara vai acabar com você quando descobrir que eu já sabia antes dela!

— Jason...

— Relaxa. Ela não sabe. Ainda.

Claro que ela não sabia.
Mas alguém sabia do pedido de casamento. Alguém muito perceptivo que não deveria ter visto o anel tão cedo e que definitivamente deveria ter me dado uma benção, no lugar de Jason.

Entramos na delegacia, e logo no saguão ouvi um pigarro que fez meu estômago afundar.

O capitão, também conhecido como:

meu futuro sogro, o homem mais bravo do estado, recordista do Olhar Assustador desde 1998, e dono de um histórico de matar gente só com a sobrancelha (metaforicamente... eu acho).

Ele me chamou com apenas uma palavra.

— Alec.

Jason levantou as mãos como quem se afasta de um crime.

— Boa sorte.

Traidor.

A sala estava com aquele cheiro de café forte misturado com papel velho. Ele estava de pé, braços cruzados, olhando pela janela como se estivesse encarando o destino — ou planejando meu funeral.

Quando virou, a expressão dele era... indecifrável.
Poderia ser raiva. Poderia ser orgulho. Poderia ser vontade de me jogar naquele vidro.

— Então — ele disse devagar —... uma aliança, de noivado.

Pronto. Morri.

— Senhor... eu ia falar com o senhor hoje.

— Acha mesmo que eu não perceberia? — ele estreitou os olhos. — Sou capitão há vinte e cinco anos, Alec. Eu percebo tudo.

Projeto LacrimosaHistórias para pegar e não largar. Descubra agora