O frio. Eu sempre me lembro do frio.
Não o frio úmido de Osasco, não o frio desse apocalipse tropical. O frio seco e absoluto do Complexo.
Estávamos enterrados sob o gelo eterno do Alasca. Eu me lembro de olhar pelas frestas das janelas blindadas e ver apenas branco por quilômetros, e às vezes, a aurora boreal zombando de nós no céu, a única cor bonita num mundo de dor.
— Número Seis. Um passo à frente — a voz do Instrutor ecoava pelos alto-falantes, fria como o vento lá fora.
Seis, meu melhor amigo, tremia. Ele era da Rússia, acostumado com o gelo, mas não com aquele gelo. Tinha cabelos muito loiros e olhos azuis aguados. Ele deu um passo. O Instrutor mandou ele segurar a respiração embaixo d'água no tanque de hipotermia.
Ao meu lado, Nove chorava silenciosamente. Ela era brasileira, como eu. Pequena, mas rápida como um lince. Dez, o garoto grande da Alemanha, olhava para o nada, recitando equações de balística em latim para acalmar a mente e apagar a alma.
— Não chore, Nove — sussurrei para ela em mandarim. — Se você chorar, eles aumentam o tempo.
Eu não tinha nome. Eu tinha uma classificação de danos. "Você é o Sete", o Instrutor anunciou no dia da Classificação, enquanto eu cuspia um dente no chão da Arena de Gelo. O círculo de combate era brutal. Não havia misericórdia, apenas hierarquia.
Eu olhei para cima. O Número Seis estava de pé sobre mim, com a faca pressionada contra minha jugular. Ele chorava, mas a mão dele era firme. Ele tinha acabado de quebrar minha costela. Ele quase me matou. Ele era o Seis porque me venceu, saindo com menos danos. Eu era o Sete porque perdi para ele, mas sobrevivi.
A lógica era simples e sádica: o Número Um era a perfeição, o soldado intocado. Quanto maior o seu número, mais você tinha perdido na arena, mais carne você tinha deixado no chão. E para aqueles que não tinham sofrido danos aparentes o suficiente para justificar sua posição baixa no ranking, os instrutores faziam com que fosse aparente.
Eu olhei para trás. O Oito estava inconsciente. Nove tinha perdido um olho na luta. Mas Dez... Dez tinha perdido, mas seu rosto estava limpo demais. Então, para que seu número fosse provado como Dez, o mais machucado, o mais fraco daquela leva, os instrutores colocaram a cara dele em fogo vivo. Ele teve que carregar a vergonha da derrota queimada na pele.
Seis desmaiou no tanque. Eu fui o único que correu para puxá-lo. O Instrutor me puniu quebrando meus dedos da mão esquerda. Foi a primeira lição: lealdade é uma fraqueza. A missão é tudo.
A realidade voltou com o cheiro ardido de pólvora queimada e sangue.
Abri os olhos. O pátio da Clínica Green estava iluminado pelos holofotes amarelados e pelos clarões dos disparos.
— Portão caiu — A voz de Jason chiou no rádio.
Eu estava no telhado do anexo leste. Ajustei a mira. Lá embaixo, o portão de aço não foi empurrado; foi rasgado.
Os "filhos" de Antoni. Homo Mortuus Superior.
Eles entraram correndo. Rápidos. Musculatura inchada sob trapos hospitalares. Uivando. Atrás deles, a Maré Morta lenta.
— Dez. Nove. Flanco direito. Contenção.
Vi Dez — o tanque de carne cicatrizada — sair de trás de uma estátua. Ele portava a metralhadora leve como se fosse brinquedo. Metade do rosto dele era uma massa derretida, a pele repuxada expondo os dentes num sorriso eterno.
Eu me lembrava do cheiro da carne dele queimando no Alasca. O Instrutor segurando a cabeça dele contra as brasas. "Você é o Dez", diziam. "Pareça com um Dez."
VOCÊ ESTÁ LENDO
Projeto Lacrimosa
General FictionUma nova droga, inicialmente tratada como um entorpecente modificado, revela efeitos impossíveis de explicar. Pessoas expostas ao composto entram em estados de violência extrema, perdem funções cognitivas em questão de minutos e... não morrem como d...
