O saquinho com os cristais azuis de Lacrimosa repousava sobre a mesa de centro de madeira compensada, refletindo a luz fraca da única lâmpada que ousamos deixar acesa. Ele parecia inofensivo ali, ao lado de um controle remoto velho e um porta-copos de crochê, mas eu sabia que aquela pequena bolsa continha a resposta — ou pelo menos o início de uma.
Claire Tompkins olhou para a droga com o mesmo desdém que olharia para uma barata morta. Ela cruzou as pernas, ajeitou os óculos quebrados e suspirou, emanando uma aura de superioridade que fazia o ar da sala parecer mais rarefeito.
Claire é o tipo de pessoa que nos faz duvidar de nossa própria existência. Ela é tão absurdamente inteligente, tão academicamente intimidadora, que nos faz pensar que nossas teorias, por mais embasadas que sejam, são apenas balela de crianças brincando de detetive. E, estatisticamente falando, devem ser.
Mas olhei ao redor. Vi o cansaço nos olhos de Jason, a sujeira nas roupas de Sara, a raiva contida na postura de Lorena. No momento, eu não ligo para estatísticas. Afinal, é um apocalipse. As regras da academia não se aplicam quando o reitor está tentando comer seu cérebro. Cada teoria deveria valer, e se eu não morrer de vergonha agora pelo vexame de ser corrigido pela mulher mais inteligente do mundo, um zumbi provavelmente vai me matar depois. Então, que se dane.
Respirei fundo, estufando o peito com uma coragem que eu não sentia de verdade.
— Claire — comecei, minha voz ganhando força —, nós temos diversos motivos para acreditar que uma droga causou isso. Não é achismo. É observação de campo. Diversas testemunhas nos contaram que, após verem outras pessoas usando a Lacrimosa, a transformação ocorreu em questão de minutos. Nós também temos evidência física. Em todos os locais onde o surto começou, encontramos esses cristais. Sempre havia Lacrimosa. E...
Claire levantou a mão, me interrompendo antes mesmo que eu completasse meu raciocínio lógico. O gesto foi tão autoritário que minha boca se fechou sozinha.
— Eu vou te parar bem aí, Garoto Ciência — ela disse, tirando um fiapo imaginário do jaleco sujo. — Respeito sua teoria. É bonitinha. Mostra iniciativa. Mas me responda uma coisa simples: se fossem apenas drogas, como isso se espalharia tão rápido e de forma tão homogênea entre a população? Como explicaria as infecções secundárias? Você mesmo disse antes que é impossível que isso tenha ocorrido apenas por mordidas na velocidade que foi. Drogas precisam de distribuição, logística, usuários dispostos. O colapso global aconteceu em setenta e duas horas. Nem a Amazon entrega tão rápido.
Abri a boca para responder, mas as palavras travaram. A lógica dela era, irritantemente, impecável.
E é aí que a dúvida começa a corroer a certeza. É onde eu me enrolo.
— E... eu... talvez... — gaguejei, sentindo o suor frio na nuca. — Olha, eu não sei. Toda teoria está sujeita a estar errada, essa é a base da ciência, certo? Mas... caso fosse apenas um vírus, por que nós não nos transformamos? Jason teve sangue e baba de zumbi em toda a cara na semana passada. Sara teve contato direto. Quer dizer então que ele, ou melhor, nós, somos imunes?
Jason, que estava bebendo o resto de uma garrafa de água quente, engasgou e me olhou, ofendido. — Ei! Não me use como exemplo de contaminação.
A sala ficou em silêncio. A pergunta pairou no ar. Se era um vírus supercontagioso, por que ainda estávamos respirando e raciocinando?
Claire franziu a testa. Pela primeira vez, a máscara de arrogância rachou, revelando uma engrenagem mental girando a mil por hora.
— Não — ela murmurou, os olhos perdidos no vazio enquanto calculava probabilidades. — Eu não acho que imunidade natural seja o caso. A taxa de mutação seria... estatisticamente impossível para um grupo aleatório como vocês. Eu também não tenho uma resposta imediata para isso... A não ser que...
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Projeto Lacrimosa
General FictionUma nova droga, inicialmente tratada como um entorpecente modificado, revela efeitos impossíveis de explicar. Pessoas expostas ao composto entram em estados de violência extrema, perdem funções cognitivas em questão de minutos e... não morrem como d...
