O Rio de Janeiro não era logo ali. Especialmente quando o mundo havia acabado.
Dirigimos por horas a fio pela Via Dutra, desviando de engavetamentos quilométricos e de crateras abertas no asfalto. O silêncio dentro do SUV era denso, pastoso. Ninguém ousava falar sobre o corpo de Sete deixado para trás, ou sobre a garota que deixei queimar. A única coisa que se movia era a paisagem monótona de morros e mato seco passando pela janela.
Quando a noite caiu, trazendo consigo a escuridão absoluta de um país sem rede elétrica, decidi parar. Não podíamos arriscar entrar na baixada fluminense no escuro. Encontramos um motel de beira de estrada em Resende, daqueles com garagens privativas e muros altos, que parecia ter sido ignorado pelos saqueadores ou limpo recentemente.
— Vamos parar aqui — anunciei, a voz rouca pelo desuso. — Ninguém dorme sozinho. Turnos de duas horas.
Entramos em uma das suítes. O lugar cheirava a mofo e desinfetante barato. Havia um espelho no teto e uma cama redonda que, em outra vida, seria motivo de piada. Hoje, era apenas um lugar para cair morto.
Colocamos Jason e Antoni, ainda inconscientes, sobre a cama. O resto de nós se espalhou pelo quarto.
Foi então que o rádio de Sete, agora sob posse de Claire, chiou.
— Águia para Unidade de Solo. Relatório de progresso.
A voz. Todos nós congelamos. Não era a voz de Sete, claro. Mas a cadência, a frieza, a ausência total de inflexão humana... era idêntica. Era como ouvir um fantasma.
Claire pegou o rádio, as mãos trêmulas. Ela olhou para mim, pedindo permissão silenciosa. Assenti.
— Aqui é a Doutora Tompkins. Estamos em Resende. Parada técnica para pernoite. A Carga está estável.
Houve um silêncio do outro lado. Um silêncio avaliativo.
— Ciente, Doutora. O cronograma está apertado. A janela de extração no Galeão fecha em 36 horas. Se vocês não estiverem lá, o pássaro voa sem vocês. E quanto ao ativo Sete... o corpo foi recuperado ou deixado in loco?
Claire engoliu em seco. — Deixado in loco. Não tivemos tempo.
— Entendido. Procedimento padrão para descarte de material biológico comprometido. Sete sempre foi eficiente, mas propenso a falhas de hardware emocional. Uma pena. Mantenham o curso.
O rádio clicou e desligou.
Ficamos nos entreolhando. "Falhas de hardware emocional". Eles falavam da morte de um homem — de um dos deles — como se fosse uma impressora quebrada.
— Eles não ligam — Maze sussurrou, limpando sua arma num canto. — Toda aquela emoção do Sete, a raiva, o apego à missão... era tudo programação. E quem está do outro lado da linha é igualzinho a ele.
— É fingimento — Claire disse, guardando o rádio como se ele queimasse sua pele. — Eles simulam emoções quando convém para manipular, e desligam quando precisam descartar. Sete não era especial. Ele era produzido em série.
Aquela constatação pairou sobre nós como uma nuvem tóxica. Tínhamos matado um monstro, apenas para descobrir que estávamos indo direto para a fábrica de monstros.
Saí para a varanda do quarto para fumar um cigarro que encontrei no porta-luvas do carro. A noite estava fria. O céu, sem a poluição luminosa das cidades, era um manto de estrelas indiferentes ao nosso sofrimento.
Ouvi a porta de correr abrir atrás de mim. Era Maze. Ela mancava um pouco, a perna enfaixada ainda doendo, mas a postura era rígida.
— Alec — ela disse.
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Projeto Lacrimosa
General FictionUma nova droga, inicialmente tratada como um entorpecente modificado, revela efeitos impossíveis de explicar. Pessoas expostas ao composto entram em estados de violência extrema, perdem funções cognitivas em questão de minutos e... não morrem como d...
