A Via Dutra era um cemitério de asfalto que se estendia até o horizonte. Depois de sairmos de São Paulo e deixarmos a Clínica Green para trás, dirigimos até a exaustão. Encontramos um refúgio temporário não em um buraco qualquer, mas na casa da Padroeira.
Estávamos no Centro de Apoio aos Romeiros, dentro do complexo do Santuário Nacional de Aparecida. O lugar, que costumava ferver com milhares de fiéis comprando velas e imagens de gesso, agora era um mausoléu de concreto e lojas fechadas. A Basílica imensa projetava uma sombra longa e silenciosa sobre nós.
Trocamos turnos durante a noite, para evitar sermos surpreendidos por ataques zumbis ou pelos "filhos" de Antoni que pudessem ter nos seguido. Todos conseguiram dormir, ou pelo menos apagar por exaustão, abrigados dentro de uma loja de souvenirs religiosos que arrombamos. Dormimos cercados por terços e garrafas de água benta em formato de santa.
Os turnos foram em duplas, mas como foi Sete quem escolheu, não foram baseados em afinidade. O meu par, obviamente, era ele.
Enquanto os outros ainda se espreguiçavam ou tentavam roubar mais alguns minutos de sono desconfortável no chão da loja, me afastei para checar uma das saídas laterais. O cheiro de cera velha e poeira santa impregnava o ar.
Foi quando vi algo que me fez parar.
No canto mais afastado da loja, onde a luz da manhã entrava filtrada por uma vitrine suja, Claire estava ajoelhada.
Ela não estava checando equipamentos, nem analisando mapas. Ela estava de joelhos diante de uma prateleira empoeirada, cheia de pequenas imagens de gesso de Nossa Senhora Aparecida.
Nas mãos, sujas de graxa, ela segurava um terço de plástico azul barato. Seus olhos estavam fechados com força, e ela sussurrava, sozinha, num ritmo frenético.
— ...rogai por nós, pecadores, agora e na hora de nossa morte. Amém. — Ela beijou a cruz, tremendo. — Santa Maria, Mãe de Deus, dai-me forças. A lógica não basta aqui. A biologia não explica o inferno.
Lorena, que tinha acabado de se levantar, se aproximou devagar. Ela parou a alguns passos, observando a cena com uma curiosidade genuína.
Claire abriu os olhos, percebendo a presença dela, mas não se levantou. Ela olhou para a pequena santa de manto azul e soltou uma risada curta, seca.
— Pode rir, Lorena — Claire disse, sem virar o rosto. — Eu sei como isso parece. Uma cientista de joelhos para o gesso. É ridículo, não é?
— Eu não ia rir — Lorena respondeu, suave. — Só... não sabia que você era religiosa. Achei que, sendo cientista, você acreditasse apenas no que pode provar e medir.
Claire virou-se, sentando nos calcanhares. — Eu sou uma controvérsia ambulante. Talvez uma fraude. Eu passo o dia olhando através de lentes, dissecando a biologia, procurando a lógica fria da evolução... e termino o dia assim.
Ela apertou o terço. — A ciência explica como o mundo funciona. A gravidade, os vírus, a entropia. Mas ela não explica por que estamos aqui sofrendo. Ela não dá consolo. Eu preciso acreditar que existe algo além da química, Lorena. Einstein acreditava em Deus, sabia? Se eu não acreditar que existe uma ordem superior, então tudo isso lá fora... os mortos, a dor... é apenas caos aleatório. E o caos não tem cura. Arthur era o oposto absoluto. Ateu convicto, para ele Deus era uma muleta para mentes fracas. Uma desculpa para a inércia. Ele achava que se o trono do céu estava vazio, cabia aos homens de intelecto sentarem nele.
Claire se levantou, limpando a poeira dos joelhos, guardando a fé no bolso junto com a munição. — Ele não tinha medo de brincar com a vida e a morte porque tinha certeza de que não havia ninguém para julgá-lo no final. Eu... eu não tenho essa coragem. Ou essa arrogância. Eu rezo porque sei que somos pequenos demais para brincar de Deus sem nos queimarmos.
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Projeto Lacrimosa
General FictionUma nova droga, inicialmente tratada como um entorpecente modificado, revela efeitos impossíveis de explicar. Pessoas expostas ao composto entram em estados de violência extrema, perdem funções cognitivas em questão de minutos e... não morrem como d...
