O motor da van roncava baixo, uma vibração constante que parecia massagear meus ossos cansados. Lá fora, a cidade passava como um borrão cinzento e destruído, mas aqui dentro, pela primeira vez em dias, havia uma sensação estranha de calmaria. Não era segurança, longe disso, mas era uma pausa. O olho do furacão.
Olhei para os rostos ao meu redor. Estávamos sujos, cobertos de sangue seco e fuligem, cheirando a pólvora e suor frio. Mas estávamos vivos.
Lorena quebrou o silêncio, sua voz rouca cortando o zumbido do motor. — Começa pelas boas... Não sei se consigo aturar mais coisas ruins.
Jason, que estava no banco do passageiro verificando o carregador da sua pistola, suspirou. — Ok, a notícia boa é que nós temos algumas informações sobre a situação em que nos encontramos.
— Que é? — Sara questionou, tirando os olhos da estrada por um milésimo de segundo.
— Bom, até então sabemos que: um, aparentemente as pessoas se transformam de dois modos, por meio de mordidas e por meio da droga Lacrimosa. Dois, eles só morrem com tiros na cabeça — Jason respondeu, contando nos dedos sujos de graxa.
Lorena revirou os olhos, impaciente. — Aham, tô escutando. O que mais?
— Ahn... é isso — respondi, dando de ombros.
— Uau, isso é mesmo muita informação — Sara ironizou, soltando uma risada nervosa. — E as notícias ruins, quais são?
Respirei fundo, sentindo o peso da realidade voltar a se instalar nos meus ombros. — Como todos já viram, os colombianos estão mortos. Não temos como chegar nos mexicanos, nem nos fornecedores das drogas e muito menos no criador dela... então nosso plano deu meio que em uma rua sem saída. Nós temos que pensar no próximo passo.
Levei a mão ao bolso e tirei o pequeno pacote plástico que parecia pesar uma tonelada. — E ah, eu esqueci de falar, nós achamos isso! — Mostrei o saquinho com o pó cristalino da Lacrimosa.
Sara olhou pelo retrovisor, incrédula. — Alec, nós estamos no meio de uma crise e você quer usar drogas?
Lorena bufou, balançando a cabeça. — Nós temos que pensar no próximo passo, você pode se drogar depois.
— Qual que é o problema de vocês? — Falei, fingindo indignação, mas incapaz de conter um sorriso de canto. — É para análise!
Todos riram. Foi um som estranho, quase alienígena naquele ambiente estéril de sobrevivência, mas necessário. Por um momento, consegui esquecer que lá fora o mundo estava acabando. O ar entre nós ficou mais leve. Talvez, apenas talvez, fôssemos um bom grupo no fim das contas.
Jason retomou a seriedade, girando o corpo para nos encarar. — Eu disse a mesma coisa! Hahaha, enfim... Nós ainda precisamos pensar no próximo passo. Eu não quero ter que voltar para a delegacia, tem muitos zumbis na área. O que nós podemos fazer para testar essa droga?
— Bom — comecei, organizando os pensamentos que giravam na minha mente de cientista —, nós precisamos descobrir os componentes da droga e por que ela causa essa reação nas pessoas, para que possamos pensar em um jeito de reverter o estado delas. O lugar mais próximo daqui com um laboratório equipado fica na divisa daqui com os prédios chiques, bem ali.
Apontei para o horizonte, onde a silhueta da cidade se erguia contra o céu nublado. Havia um gigante de vidro e aço que se destacava, com um "T" enorme e iluminado no topo, desafiando o caos lá embaixo.
— O único lugar que cuida das pessoas pobres ao mesmo tempo que traz os avanços tecnológicos. Uma fusão de filantropia e ciência de ponta. A empresa foi criada por uma cientista que eu admiro muito, a famosa...
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Projeto Lacrimosa
General FictionUma nova droga, inicialmente tratada como um entorpecente modificado, revela efeitos impossíveis de explicar. Pessoas expostas ao composto entram em estados de violência extrema, perdem funções cognitivas em questão de minutos e... não morrem como d...
