PESADELO

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A manhã seguinte na casa de Lorena nasceu com uma falsa promessa de paz. O sol entrava pelas frestas da janela barricada, desenhando linhas de poeira dourada no ar, ignorando completamente que o mundo lá fora estava apodrecendo.

Acordei sentindo um peso no peito, mas dessa vez não era medo. Era o braço de Sara. Ela dormia aninhada em mim no chão da sala, a respiração suave e rítmica contra meu pescoço. Por um momento, o cheiro de mofo e pólvora desapareceu, substituído pelo cheiro dela — baunilha e suor, o perfume da sobrevivência.

Afastei uma mecha de cabelo do rosto dela. Ela se mexeu, abrindo os olhos devagar. Aquele verde claro que sempre foi meu norte.

— Bom dia, cientista — ela sussurrou, a voz rouca de sono.

— Bom dia, futura Sra. Wonderwood — respondi, sorrindo. — Dormiu bem no hotel cinco estrelas da Lorena?

— O serviço de quarto deixa a desejar, mas a companhia é excelente. — Ela se espreguiçou, gemendo um pouco pela dureza do chão. — Sabe o que eu estava pensando?

— Que precisamos achar escovas de dente?

— Também. Mas estava pensando no depois. Quando acharmos a cura, quando isso acabar... a gente devia ir para a praia. Mas uma praia deserta. Sem gente, sem barulho. Só nós dois e um estoque vitalício de água de coco.

— Parece um plano — concordei, beijando a testa dela. Minha mão desceu pelas costas dela, um toque íntimo e possessivo, reafirmando que estávamos vivos. Ela riu, me puxando para um beijo mais demorado, quente, ignorando que estávamos numa sala cheia de gente.

— Ei, ei, ei! — A voz de Jason cortou o momento como um balde de água fria. Ele estava em pé na porta da cozinha, segurando uma lata de pêssegos em calda. — O motel acabou. Hora de levantar, Romeu e Julieta. Temos um apocalipse para cancelar.

Sara riu, jogando um travesseiro nele. — Você é insuportável, Jason.

— É meu trabalho como irmão mais velho. Impedir que você faça sobrinhos num apocalipse zumbi. — Ele piscou, mas havia um carinho genuíno no olhar dele. Ele jogou a lata para ela. — Café da manhã dos campeões. Come tudo.

Levantamos. A dinâmica na casa tinha mudado. O embate da noite anterior parecia ter limpado o ar, como uma tempestade de verão.

Na cozinha, Lorena estava verificando os pentes da sua nova pistola. Sara se aproximou dela, tocando seu ombro. — Obrigada por nos receber, Lo. Sei que é difícil ter gente na casa... depois dele.

Lorena parou, olhando para a foto do marido na geladeira, depois para Sara. Ela sorriu, um sorriso triste, mas sincero. — É melhor do que ouvir o silêncio, Sara. Vocês trouxeram vida pra essa tumba. Eu não conseguiria voltar aqui sozinha, sem vocês. Obrigada você.

No canto, Claire Tompkins estava sentada rigidamente numa cadeira de plástico, olhando para o nada. Ela parecia deslocada, uma rainha sem trono. Sara, com aquele coração que não cabia no peito, pegou uma metade do pêssego em calda e ofereceu.

— Doutora? — Sara chamou.

Claire olhou para a fruta enlatada com suspeita. — Isso é puro açúcar e conservantes cancerígenos.

— É caloria — Sara insistiu, sorrindo. — E é doce. Às vezes o cérebro precisa de açúcar pra ser genial. Vamos, pega. Não está envenenado, eu prometo.

Claire hesitou, depois pegou o pedaço com a ponta dos dedos sujos de graxa. Ela comeu, e por um segundo, a carranca habitual suavizou. — Obrigada — ela murmurou, baixo. Depois, olhou para Sara nos olhos. — Você... você é tolerável. Ao contrário do seu noivo tagarela.

Projeto LacrimosaHistórias para pegar e não largar. Descubra agora