NÃO EXISTEM HERÓIS

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O calor da Linha Vermelha não vinha apenas do sol; vinha de baixo, do asfalto que cozinhava sob os pneus parados do SUV, e vinha de dentro, da raiva que borbulhava no meu estômago como piche quente.

Estávamos parados há duas horas, esperando Jason e Maze voltarem com os "disfarces". Duas horas observando a muralha de contêineres do Galeão. Duas horas respirando o ar salgado e podre da Baía de Guanabara, misturado com o cheiro de milhares de corpos em decomposição.

Eu não conseguia fechar os olhos. Se eu fechasse, eu a via. Sara. Não a Sara dos sonhos bonitos, da casa azul e das panquecas. Aquela Sara tinha morrido na minha mente junto com a garota da van. Agora, quando eu piscava, via a Sara zumbi. A pele cinza, a boca suja de sangue, os olhos leitosos me acusando. "Você é fraco, Alec. Você deixa todos morrerem."

— Alec? — A voz era suave, mas me fez pular como se tivesse levado um choque.

Virei-me, a mão indo instintivamente para o coldre. Era Lorena. Ela estava sentada no estribo do carro, limpando as unhas sujas de graxa. O rosto dela estava cansado, mas seus olhos castanhos ainda tinham aquela luz irritante de quem se recusa a desistir.

— Você está bem? — ela perguntou, a testa franzida. — Você estava... murmurando.

Passei a mão no rosto, sentindo a barba por fazer e o suor frio. — Estou bem. Só... pensando. Calculando rotas.

— Mentiroso — ela disse, sem maldade. — Você estava pensando nela. Na Sara.

Eu ri, um som seco e sem humor. — É difícil não pensar. Às vezes eu acho que ainda sinto o cheiro do perfume dela, mesmo no meio desse fedor de carniça. Isso é loucura, não é? O cérebro criando fantasmas para não ter que lidar com a realidade.

— É luto, Alec. Não loucura. — Lorena se aproximou, sentando-se ao meu lado no asfalto quente. — E você não precisa carregar isso sozinho. Você está sendo muito duro com todo mundo, mas principalmente com você mesmo.

Olhei para ela. Lorena tinha uma resiliência silenciosa que eu invejava e temia. Ela não apenas perdeu o marido no início de tudo. Ela o viu morrer, viu os olhos dele mudarem de cor, viu o homem que amava se tornar uma coisa. E ela teve que fazer o que precisava ser feito. Ela teve que "matá-lo" para que ele não a matasse.

Nós trocamos um olhar pesado. Eu sabia que ela via a mesma coisa nos meus olhos. Nós éramos membros do mesmo clube maldito: os viúvos do apocalipse que tiveram que ver o amor de suas vidas se transformar em monstro. A culpa de sobreviver às custas da morte de quem amávamos era um laço mais forte que qualquer amizade antiga.

— Eu sei o que você sente — ela sussurrou, tocando meu braço. — A sensação de ter falhado. De que devia ter sido você no lugar dela. Mas a Sara... e o meu marido... eles não iriam querer que a gente desistisse. Eles morreram para que a gente pudesse estar aqui, suando nesse asfalto.

Engoli o nó na garganta. Ela estava certa, mas doía. — Você não acha que eles estão demorando demais? — ela mudou de assunto, olhando para o manguezal onde Jason e Maze desapareceram. — Já faz duas horas.

Havia uma nota diferente na voz dela. Preocupação, sim. Mas algo mais. Insegurança?

— Jason e Maze são os melhores que temos — respondi, tentando passar uma confiança que eu não sentia. — Eles são silenciosos. Letais. Se alguém consegue esfolar zumbis sem ser notado, são eles.

— E os mais fofos juntos! — Baldir gritou de dentro do carro, onde estava deitado no banco de couro com o ar condicionado ligado (gastando nossa preciosa gasolina). Ele colocou a cabeça para fora da janela. — Eu super shippoeles! O "Soldado e a Assassina". Dá um filme, hein? Ou pelo menos uma fanfic picante!

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⏰ Última atualização: Dec 18, 2025 ⏰

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