SOBREVIVENTES

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O motor da van engasgou, um som metálico e doentio que reverberou pelos meus ossos antes de o veículo morrer completamente. O silêncio que se seguiu foi mais ensurdecedor do que o barulho do motor. Estávamos em uma rua estreita da Cardeal, cercada por prédios de tijolos expostos que pareciam sangrar ferrugem sob o sol impiedoso da tarde. O calor dentro da van tornou-se instantaneamente sufocante, uma mistura densa de suor velho, óleo queimado e o cheiro adocicado e onipresente de decomposição que parecia ter se tornado a fragrância natural da cidade.

— Merda — resmungou Jason, batendo a mão espalmada no painel. O plástico estalou sob o impacto. — O que foi agora?

— Acho que passamos por cima de algo. Ou o radiador finalmente desistiu — respondi, girando a chave inutilmente. O motor apenas tossiu. — Vamos ter que verificar.

Olhei pelo retrovisor. Sara estava limpando os óculos com a barra da camisa, os olhos semicerrados de cansaço, a armação escorregando no nariz suado. Lorena, ao lado dela, mantinha o olhar fixo na janela, observando as sombras que dançavam nos becos como se esperasse que elas ganhassem vida. Havia uma tensão no ar, um fio invisível esticado ao ponto de ruptura entre nós quatro, vibrando com a eletricidade estática do medo.

— Fiquem atentos — disse Jason, já abrindo a porta do carona. Ele sacou a pistola com um movimento fluido, treinado, mas havia uma rigidez em seus ombros que não costumava estar ali antes de o mundo acabar. — Eu vou checar o motor. Alec, me dá cobertura.

Saímos para o asfalto quente. O cheiro aqui fora era pior. Era o cheiro de lixo não recolhido há semanas cozinhando no calor, de carne apodrecendo em algum lugar próximo e de esgoto estourado. A rua parecia deserta, mas em tempos como este, o vazio era apenas um prelúdio para o desastre. O vento arrastava papéis velhos pelo chão, o único movimento visível. É até engraçado como o mundo pode entrar facilmente em estado apocalíptico logo após um evento que é, de fato, apocalíptico.

Jason levantou o capô, liberando uma nuvem de vapor branco que cheirava a produtos químicos ácidos.

— É uma mangueira estourada — diagnosticou ele, passando a mão pela testa suada, deixando um rastro de graxa. — Vou precisar de fita e água. Alec, pega a caixa de ferramentas atrás do banco.

Foi nesse momento que o som surgiu. Não foi um grito, mas um gorgolejar úmido, vindo de trás de uma caçamba de lixo tombada a poucos metros de nós. Antes que eu pudesse levantar meu rifle, a figura emergiu.

Era um homem — ou o que restava de um. A pele estava cinzenta, repuxada sobre os ossos faciais como pergaminho seco. Faltava-lhe o braço esquerdo, e o toco irregular pingava um fluido escuro e viscoso no asfalto. Ele se lançou sobre Jason com uma velocidade que contradizia seu estado de putrefação. Por que essas coisas estão com uma aparência de mortos a tempos? Faz apenas dias que o Apocalipse começou.

— Jason! — gritei, disparando. A bala acertou o ombro da criatura, girando-a, mas não a parando.

Jason tentou recuar, mas tropeçou no meio-fio quebrado. A criatura caiu sobre ele, o peso morto prendendo-o ao chão, os dentes estalando a centímetros de seu pescoço, babando uma saliva negra. Outros começaram a surgir dos becos, atraídos pelo som do disparo, arrastando-se das sombras como baratas. O caos total se instalou.

— Sai de mim! — Jason gritava, usando o antebraço para bloquear a mandíbula da coisa.

Larguei a cobertura e corri para ajudar meu parceiro, mas alguém foi mais rápido.

A porta lateral da van se abriu com um estrondo metálico. Lorena saltou para o asfalto, não com o pânico de uma civil, mas com a determinação fria de quem já viu a morte de perto muitas vezes e decidiu que hoje não era o dia. Ela não tinha uma arma de fogo. Em sua mão direita, brilhava o aço cirúrgico de uma tesoura de trauma.

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