BALDIR

82 41 5
                                        

A van que Sete nos ofereceu não era apenas um veículo; era uma fortaleza móvel. Preta, blindada, com pneus que pareciam capazes de esmagar crânios como se fossem uvas. O interior cheirava a polímero novo e óleo de arma, um contraste gritante com o fedor de morte e sangue coagulado que impregnava nossas roupas.

Mas nem toda a blindagem do mundo poderia proteger o que estava acontecendo dentro das nossas cabeças.

A discussão sobre os lugares foi o primeiro sinal de que aquela aliança seria frágil. Sete, com sua arrogância militar, queria o controle total. — Eu dirijo. O civil — ele apontou para Baldir — vem comigo na frente. Vocês se amontoam atrás.

— Nem fodendo — rosnei, bloqueando a entrada dele. — Nós somos um grupo. Nós temos armas e, francamente, você precisa mais da gente do que a gente de você. Você não vai encontrar outro esquadrão suicida disposto a carregar um velho ranzinza para o desconhecido.

Sete trincou o maxilar, a cicatriz em seu rosto pulsando. Jason se aproximou, os olhos vermelhos e inchados, mas com uma necessidade desesperada de controle.

— Eu dirijo — disse Jason, a voz rouca, mas firme. — Preciso fazer alguma coisa. Preciso manter as mãos ocupadas. O Alec vai na navegação. A Maze faz a segurança. Você e o seu... pacote... vão atrás.

Sete avaliou as probabilidades. Ele era treinado, letal, mas éramos quatro contra um. Ele bufou, aceitando a derrota temporária. — Tudo bem. Mas se saírem da rota, eu apago vocês.

Assim que o motor roncou e Jason arrancou com a van, isolando o mundo exterior com um zumbido grave, a tensão interna explodiu.

Estamos na estrada há trinta minutos. Jason dirige com os nós dos dedos brancos no volante, os olhos fixos no asfalto como se quisesse perfurá-lo. Eu estou no banco do passageiro, observando o mapa e, pelo canto do olho, a instabilidade do meu amigo. Maze está no banco de trás, logo atrás de mim, limpando sua arma.

Lá no fundo, na área de carga adaptada com bancos, a mente de Claire está correndo mais rápido que a van.

— Isso muda tudo — ela murmurou, alto o suficiente para ouvirmos. Ela roía a unha do polegar, frenética. — Minhas teorias... tudo o que eu compilei nos últimos meses... eu foquei na ingestão, na inalação e na mordida direta, na troca massiva de fluídos. Mas nunca coloquei o arranhão superficial na equação.

Lorena, sentada ao lado dela, limpava o sangue de Benedite de suas mãos com um lenço umedecido. — O vírus ou a droga... seja lá o que for, está mutando. Ou sempre foi assim e tivemos sorte.

— Sorte não é um termo científico — Claire retrucou. — Pensem na virologia básica. Se a carga viral necessária para a infecção é tão baixa que um arranhão de unhas sujas basta... então estamos lidando com algo extremamente agressivo. E se houver outras vias? Contato de mucosa? Contato sexual? O suor?

Ela olhou para nós, os olhos brilhando com aquele fervor acadêmico que beirava a loucura. — Ah, são tantas variáveis! Eu preciso de um microscópio. Preciso de amostras de tecido daquela garota... devíamos ter trazido o braço dela! Quero chegar logo em algum lugar que eu possa começar meus estudos.

Jason soltou uma risada seca, amarga, sem tirar os olhos da estrada. — "Estudos". Engraçado você falar disso agora, Claire.

O clima pesou. Eu vi pelo retrovisor Claire se encolher. — O que você quer dizer com isso?

Lorena levantou a cabeça. — Ele quer dizer o que todos nós estamos pensando, Claire. Aquele papo lá no posto. Sobre o laboratório.

Claire tentou desviar o olhar. — Eu já disse que não sabia a extensão do que o Arthur fazia, nem como eram os testes.

Projeto LacrimosaHistórias para pegar e não largar. Descubra agora