Aquele dia foi uma virada de chave no nosso relacionamento, disso eu nunca duvidei. A dúvida real, persistente, quase cruel, sempre foi se a chave girou para abrir alguma coisa ou para trancar de vez o que ainda restava. Hoje, olhando de longe, com a vantagem amarga do tempo e da memória organizada em capítulos, suspeito que tenha sido para pior. Quase sempre é. Talvez muitas coisas tivessem sido evitadas se nossa relação nunca tivesse passado de um contrato frio, assinado com mãos firmes e expectativas baixas. Talvez eu não estivesse escrevendo esta história agora, anos depois, escolhendo palavras como quem toca uma ferida com cuidado excessivo. Ou talvez, e essa hipótese sempre me persegue, todos os caminhos realmente levem à Roma, e não houvesse rota alternativa capaz de nos poupar de nós mesmas.
O resto da tarde foi, paradoxalmente, leve. Quase feliz. Como se o universo tivesse decidido nos dar uma trégua provisória, uma espécie de intervalo antes do impacto. Nos divertimos com os meninos, rimos alto, exagerado, daquele jeito que só quem sabe que o riso não vai durar consegue rir. Havia sol, havia barulho, havia vida circulando entre nós. E havia, sobretudo, o cuidado dela em respeitar a minha ideia de "ir devagar" — uma decisão que, ironicamente, mais tarde eu entenderia como o começo da ruína. À época, parecia maturidade. Hoje, soa como covardia bem-intencionada.
O dia se despediu sem alarde. O céu escureceu em camadas, e quando percebi, o sol já tinha se posto completamente. Estávamos no quarto, organizando a mala com aquela lentidão típica de quem não quer ir embora, mas também não sabe como ficar. A vitrola tocava um clássico antigo, quase fora de lugar naquele cenário: Emotions. Brenda Lee preenchia o ar com uma ironia tão bem colocada que chegava a ser ofensiva. Lembro de pensar nisso. Lembro de pensar em como certas músicas parecem nos observar, sabendo demais.
Eu a observava em silêncio. Scarlett dobrava roupas com atenção excessiva, como se cada peça exigisse um ritual específico. Suas costas estavam voltadas para mim, e eu conhecia cada detalhe daquele mapa: as pintas pequenas, as tatuagens, a linha sutil da coluna, a tensão quase imperceptível nos ombros. De vez em quando, ela percebia meu olhar e sorria por cima do ombro, um sorriso rápido, íntimo, desses que não se oferecem a qualquer um. Naquele instante, ela parecia perfeita. Intocável. Mas eu já sabia — mesmo fingindo que não — que as pessoas nunca são feitas de um lado só. Principalmente quando estão com raiva. Principalmente eu.
A viagem tinha acabado. Voltaríamos naquela mesma noite. E eu tinha medo. Um medo quieto, profundo, crescendo dentro do peito como algo vivo. Medo de que, ao retornarmos, deixássemos para trás aquele passo importante que havíamos dado, ainda que sem nome. Sempre foi assim: depois de cada acerto, vinha essa angústia densa, essa sensação de que a paz entre nós tinha prazo de validade. A verdade cruel — aquela que eu demorei anos para admitir — talvez seja que só funcionávamos sob efeito de álcool, de fuga, de corpos suados entre lençóis amarrotados. Só sabíamos ser nós quando estávamos nos perdendo.
— O que foi? — perguntou ela de repente, com um sorriso leve nos lábios.
Demorei a perceber que ela tinha se virado. Eu estava longe demais, presa nos próprios pensamentos, afundada naquele lugar interno onde tudo é confuso demais para ser dito em voz alta.
— Só contando as pintas nas suas costas — respondi, tentando salvar o momento com leveza.
Ela riu. Um riso baixo, quase carinhoso.
— Entendi. Você está me bebendo com os olhos — brincou, aproximando-se da beirada da cama onde eu estava sentada.
Afastei as pernas para que ela acomodasse um joelho entre elas. O gesto foi automático, antigo. Minhas mãos subiram para os quadris dela como se sempre tivessem pertencido ali.
— Bebendo. Comendo. Fazendo a refeição inteira.
Ela soltou aquela risada específica, a risada que começava com a vogal "a" lançada no ar, quase como um grito divertido. Em seguida, me empurrou de leve no ombro, um gesto que ela sempre fazia quando ficava envergonhada, como se precisasse afastar o que sentia antes que aquilo crescesse demais.
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Sem Querer, Casadas
FanfictionPara que um casamento funcione, é essencial ter amor e convicção. No entanto, Scarlett Johansson e S/n Taylor não possuíam nenhuma dessas qualidades. Em vez disso, eram marcadas por uma aversão mútua. Seus encontros eram dominados por ressentimento...
