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No dia seguinte, eu estava na cozinha, me servindo de um pouco do café que a cafeteira tinha acabado de preparar, tentando processar a noite passada. O café quente em minha mão parecia quase um reflexo do calor que ainda estava em meu corpo, o tipo de calor que não desaparece logo depois de uma noite de proximidade inesperada. O sol estava começando a iluminar a cozinha com um tom suave, quase preguiçoso, como se o dia ainda não tivesse pressa de começar. A cafeteira ainda emitia aquele som familiar de gotejamento, o que fazia a manhã parecer ainda mais tranquila, apesar da inquietação que me percorria por dentro.

Lá fora, o barulho suave de pássaros era a única coisa que quebrava o silêncio. Eu me perdi por alguns segundos olhando pela janela, tentando controlar a mente que teimava em ir direto para Scarlett, para como ela estava deitada ao meu lado, como se fosse normal compartilharmos aquele espaço, depois de tudo. Eu não podia evitar o jeito que a sensação de ter acordado ao lado dela me envolvia – o seu toque, a respiração suave e constante contra a minha pele, o conforto de ter alguém ali, ao alcance dos meus dedos.

Voltei a olhar para a xícara e dei outro gole, tentando me concentrar, mas algo sobre a ideia de ter dormido ao lado dela ainda me deixava desconcertada. Eu queria que o momento fosse mais simples, mais... tranquilo. Mas ele não era, e isso só tornava tudo mais complicado. Eu sabia que logo ela viria para a cozinha, provavelmente com a mesma calma preguiçosa, mas talvez com aquele sorriso irônico que só ela sabia dar.

Suspirei baixinho, colocando a xícara sobre a mesa, me preparando para encarar a realidade que logo tomaria forma. Algo em mim estava começando a perceber, aos poucos, que nossa convivência, embora cheia de barreiras e incertezas, estava se tornando algo maior do que eu havia planejado.

— Noite agitada, não é? — A voz de Thomas me interrompeu enquanto eu estava perdida nos meus pensamentos. Ele entrou na cozinha ainda com cara de sono, vestindo calça de moletom e uma camiseta, com os cabelos ruivos bagunçados.

— É... — respondi distraída, tentando processar a pergunta. — Espera, o que você quer dizer com isso?

— Bem, você e Scarlett... — ele disse, se aproximando da cafeteira para se servir.

— O que tem? — perguntei, o cenho agora franzido, sem entender onde ele queria chegar.

— Eu estava no quarto ao lado, não tinha como não ouvir. Pareceu bem... agitado, sabe? — Ele lançou um olhar de canto e um sorriso maroto, como se soubesse algo que eu não queria admitir.

Aquelas palavras causaram um pânico instantâneo. Meus pensamentos começaram a se atropelar. Olhei para ele com os olhos arregalados.

— O quê? Não! Claro que não! — Minha voz saiu mais alta do que eu queria, e eu me vi tentando corrigir a situação, mas a tensão estava no ar. — Não aconteceu nada disso!

Thomas me olhou por um momento, seu sorriso travesso crescendo. Ele se serviu do café com calma, como se estivesse esperando eu me retratar ou, talvez, tentando ver até onde eu ia negar.

— Ah, sei... — Ele deu uma risadinha. — Sei que é difícil, mas você pode me contar, sabia? Não sou tão difícil de lidar. — Ele me encarou com aquele olhar brincalhão, como se soubesse exatamente o que estava acontecendo.

Eu não sabia o que responder. Eu queria dizer que não tinha nada a ver, mas o calor subindo ao meu rosto estava me traindo. Eu olhei para o canto da cozinha, tentando me distrair, mas a lembrança do que aconteceu na noite anterior ainda estava viva em minha mente, vívida e insuportável.

— Thomas, não sei do que você está falando — disse finalmente, tentando manter a compostura, mas minha voz saiu mais abafada do que eu queria. Ele deu um gole no café, ainda com aquele sorriso de quem sabia muito mais do que eu estava disposta a admitir.

Sem Querer, CasadasOnde histórias criam vida. Descubra agora