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Eu nunca achei que sentiria medo de uma cela novamente.
Já estive em lugares piores.
Já dormi em chão frio. Já acordei ouvindo barulho de gente gritando. Já senti o cheiro de perigo antes mesmo de ver ele chegando.

Mas dessa vez era diferente.
Porque antes...
Eu não tinha nada para perder.
Agora eu tinha tudo.
Sarah.
Manu.
Junior.
Cinco cães
Minha casa.
Minha oficina.
Minha vida.

A vida que eu lutei tanto para construir.
E em uma manhã...
Tudo desmoronou.

A delegacia parecia mais fria do que eu lembrava.
Talvez porque dessa vez eu não estava chegando como o cara que não ligava para nada.
Eu estava chegando como um pai.
Como marido.
Como alguém que tinha uma família esperando em casa.

Eu estava sentado naquela sala pequena, com as mãos algemadas sobre a mesa.
O barulho das algemas batendo na madeira me incomodava.

Porque aquele som... ah quele som.
Eu conhecia.

E eu odiava lembrar.
A porta abriu.
Era meu advogado.

Ele entrou com uma expressão séria.

Advogado: Mayck...

Levantei os olhos.
Mayck: Fala logo.

Ele respirou fundo e sentou na minha frente.
Advogado: Eles pediram sua prisão preventiva.

Meu coração apertou.
Mayck: Preventiva?

Ele assentiu.
Advogado: Alegaram risco de fuga.

Eu soltei uma risada sem humor.
Mayck: Fuga?

Olhei para minhas mãos.
Mayck: Doutor... eu tenho uma mulher, dois filhos, cinco cachorros, uma casa e uma oficina que eu suei pra construir.

Levantei os olhos.
Mayck: Pra onde exatamente eles acham que eu iria?

Ele ficou em silêncio.
E aquele silêncio respondeu tudo.

Passei a mão pelo rosto.
Mayck: Eles querem me pintar como o homem que eu era.

Advogado: Mayck...

Mayck: Mas eles não conhecem esse cara.

Minha voz saiu baixa.

Mayck: Esse cara morreu.

Quando Sarah chegou na delegacia...
Eu soube na hora, mesmo sem ver.
Porque eu conhecia ela.
Conhecia o jeito que ela andava quando estava tentando ser forte.
Conhecia o silêncio dela quando estava destruída.
A porta abriu, e ela entrou, os olhos vermelhos.
Nando vinha logo atrás.
Quando ela me viu..., Ela parou.
Por alguns segundos ninguém falou nada.
Ela só me olhou.

Como se estivesse tentando entender como aquele homem algemado era o mesmo que poucas horas antes estava preparando café para ela.

Sarah se aproximou com lagrimas nos olhos .
Sarah: Amor...

A voz dela quebrou, eu levantei.

Queria abraçar ela, queria sentir ela perto.

Mas aquelas algemas estavam ali para lembrar que eu não podia.
Mayck: Ei...

Ela segurou minha mão.
Sarah: Eu vou tirar você daqui.

Fechei os olhos por um segundo, porque ouvir aquilo dela doía.
Não porque eu não acreditava.
Mas porque eu sabia o quanto ela ia sofrer.

Mayck: Pequena...

Ela me olhou.
Mayck: Cuida dos nossos filhos.

Ela balançou a cabeça chorando.
Sarah: Não fala assim.

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