O mini furacão

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Quando uma criança fica empolgada demais com algo, só há dois motivos: 1- ela ama fazer isso; ou 2- ela é muito boa nisso. No caso da Ester, são as duas opções.
Chegamos na arena e ela me soltou, olhou ao redor pra ver o melhor lugar e foi andando até uma parte da arena que estava sem ninguém, parou e se virou para mim. Fui de encontro a ela e parei em sua frente.
- que arma você usa? - perguntou ela.
- eu uso uma espada - desembainho a espada e mostro a ela, que fica encantada.
- uau ela é linda... Sua mãe que te deu?
- sim.. - sorrio - e você usa o que? Uma espada também?
- não... Quer dizer, eu sei usar uma espada, na verdade eu sei usar qualquer tipo de arma - diz com orgulho - já que meu pai é o deus da guerra, eu consigo usar tudo que serve pra lutar. Mas eu não gosto muito de espadas, eu prefiro minha lança - enfia a mão no bolso e tira de lá um mini bastão de bronze, fico olhando para aquela "lança".
- é um pouco pequena para uma lança... Não? - e ela começa a rir.
- é porque ela encolhe... Olha só - segura com firmeza a lança e ela... Bem, não tenho uma palavra melhor para descrever, mas ela cresce e fica com aproximadamente 1,60m. Fico olhando impressionada, como uma coisinha pode virar algo enorme? E como raios uma criancinha podia manejar aquilo?
- nossa, isso é impressionante. E ela é linda, parabéns Ester - digo sorrindo, ainda olhando para a lança - suponho que seu pai lhe deu a lança.
- isso... E me deu um escudo também, mas eu não gosto de usar ele em treinos. Enfim, vamos lutar! - disse com mais entusiasmo do que se pode imaginar.
- certo, vamos lá.. - seguro minha espada com firmeza e me preparo, não sabia o que esperar dela.
Ela sorri de lado e sua expressão muda, parecia outra pessoa, ficou mais atenta, girou a lança com uma habilidade incrível e partiu para o ataque. Veio em minha direção e desferiu um ataque na direção da minha perna esquerda, na altura da coxa, girei a espada e consegui defender, mas a força do impacto me impressionou, era tão forte que acabei recuando uns dois passos para evitar cair. Ela percebeu e já atacou novamente, girou o corpo e desferiu um ataque horizontal tentando acertar minha cintura do lado esquerdo, tão ágil que quase não consegui defender, mas ela ainda estava na ativa, se abaixou e me deu uma rasteira, mas não consegui ser rápida como ela e acabei de costas no chão. Antes que eu pensasse em revidar, ela apontou a lança em meu pescoço com um sorriso presunçoso no rosto.
- ponto pra mim...
Fiquei olhando pra ela impressionada, agora eu entendi como uma garotinha ganhou de Jack. Ela era um mini furacão, não só na hora de comer, mas na hora de lutar, a garota irradiava energia. Sorri pra ela, rolei pro lado e me levantei.
- segundo round?
- segundo round... Se prepare loira, não vou ter dó de você...
Quase ri, mas ela mesma me ensinou que não podemos nos distrair em batalha, então mantive o foco e, dessa vez, eu parti para o ataque primeiro. Fui em sua direção e desferi um ataque com a espada tentando acertar seu ombro esquerdo, vi que ela segurava a lança com a mão esquerda, então supus que ela era canhota. Erro meu, ela percebeu o ataque, defendeu apenas girando a lança e trocou a mesma de mão, me atacando na lateral direita, acertando minha cintura com força, desequilibrei e por pouco não caí. Aproveitei e peguei impulso para girar meu corpo tentei acertar seu abdômen, mas ela deu um pulo e desviou com facilidade e começou a rir.
- como conseguiu ficar viva? É tão lenta...
Fiquei chocada, ela estava me provocando? Como ela podia dizer que eu era lenta? Fiquei levementirritada e tentei ataca-la novamente, em vão, ela desviou e tentou me dar outra rasteira, mas dessa vez conseguipular e desviei. Ela nem se abalou e aproveitou que pulei e me deu um chute que eu recebi no quadril. Doeu.
- ah tadinha... Agora ela está descadeirada... Quer uma cadeira de rodas, vovó?
Ah não, ela me chamou de velha! Me irritei e comecei a atacar com mais raiva, mas quanto mais eu atacava, mais ela desviava e me provocava e eu perdia a concentração. E ficamos nessa, ela mais desviava e quase não fazia esforço nenhum, ela estava me cansando e me irritando para eu ficar desfocada. Obviamente, percebi isso um pouco tarde demais, uma brecha pequena que eu dei e ela enfiou a lança na minha coxa. Gritei de dor e cai no chão, olhei para minha perna e minha roupa estava banhada de sangue,... O meu sangue.
Não consegui me levantar, e ela me olhou um tempo, depois parece que caiu a ficha dela do que aconteceu e ela voltou a ser a Ester fofa, não o mini furacão.
- ai.. Espera.. Eu ajudo - e antes que eu pudesse dizer algo, ela pegou e puxou a lança com tudo. Delicada? Nunca...
Isso piorou o ferimento e o sangue não parava de escorrer, a lança havia atravessado minha perna. Ela quase se desesperou, não pelo sangue. Mas por ter me machucado.
- ai ai ai... Vem, eu te levo pra Nath... - se abaixou, me pegou no colo como se eu fosse uma boneca de pano e correu para a enfermaria.
Nathaly estava cantando quando chegamos, deu um lindo bom dia e viu a minha situação.
- ah Ester, de novo? - suspirou enquanto Ester me colocava numa maca.
Nathaly já veio e começou a limpar o ferimento com certa habilidade e me deu um tabletinho, me disse para comer enquanto estancava o sangue. Ester se sentou na maca ao lado e ficou me olhando, balançando os pés despreocupadamente. Comi o tabletinho que Nath me deu e senti gosto de caldo verde, logo em seguida, senti como se estivesse queimando por dentro, ofeguei e olhei pra Nathaly, mas ela estava concentrada com a mão em cima do meu ferimento. Fechei os olhos, estava horrível, não conseguia olhar, iria demorar meses para se curar. Tentei não ficar chateada, tentei não chorar. Respirei fundo e senti meu ferimento formigar, ignorei. Ignorei tudo ao meu redor, ignorei a Ester, ignorei a dor...
Quando me dei conta, Nathaly disse que estava pronto, mas que eu precisaria descansar e que eu ia ficar com a cicatriz.
- desculpe Elsa, não tenho poder o suficiente para evitar cicatrizes ainda. Principalmente com um ferimento desses... - ela parecia chateada, se sentindo culpada.
- tudo bem.. Só.. Quanto tempo vou ficar aqui? - nem ousei olhar para minha perna, devia estar horrível.
- só mais alguns minutos, tempo o suficiente pra ambrosia terminar o efeito, mas seu ferimento está fechado já...
- o que? - me sentei e olhei, realmente não havia mais ferimento, apenas uma cicatriz. Fiquei boquiaberta. - mas... Como...? Foi aquele tablete de caldo verde que me deu?
- ah.. Não, bem.. Ambrosia é a comida dos deuses e néctar é a bebida, nós podemos comer e beber, mas apenas para fins curativos e em pouca quantidade, se comermos ou bebermos muito, nossas entranhas viram cinzas e nós morremos, e mortais nem podem chegar perto, senão morrem instantaneamente... Cada semideus sente um gosto diferente, no caso da sua comida preferida. Eu por exemplo, sinto gosto de lasanha, Ester de bacon, você de caldo verde. Assim como néctar, porém o néctar sentimos o gosto de nossa bebida preferida.
- ah sim... - concordei com a cabeça e me emcostei de novo, processando tudo k que havia ouvido.
- agora, Ester.. - se vira para Ester - já não disse pra você tomar cuidado? Poxa nem todo mundo tem a sua força, tem que ser mais cuidadosa.
- mas Nath, eu quase não bati nela, eu juro... Eu só fiquei cansando ela e o único ataque sério que eu dei, foi esse.. E nem foi tão sério, ela estava com a guarda aberta, não tinha como não acertar...
- não importa, agora seja mais cuidadosa... Serio, não quero te deixar de castigo.
- ah Nath, castigo não... - choramingou - não posso ficar sem as atividades...
- prefere limpar os estábulos?
- hum... - pensa um pouco - não, prefiro ser mais cuidadosa.. - faz carinha de santa e Nath ri.
- certo, mas toma cuidado ta bem? E peça desculpas pra Elsa, ela vai ficar com uma cicatriz por sua causa.
Então Ester se levanta e vem saltitando até mim.
- Elsa, desculpa ta? Eu falei aquelas coisas porque é estatregia.. Você não é lenta, você luta muito bem... E... - se inclina e fala baixinho em meu ouvido - os melhores guerreiros levam cicatrizes, é sinal que sobreviveram a grandes batalhas - e se levanta de novo, sorrindo. Não pude deixar de sorrir e nem pude ficar brava com ela. Ela não fez por mal, na cabeça dela, estava apenas treinando e ainda me elogiou, me elogiou por eu perder lindamente, mas elogiou.
- tudo bem, mas só uma coisa...
- o que?
- se diz estrategia...
- etastegia...
- não... Es-tra-te-gi-a...
- es-tra.... Te... - pensa um pouco - gi-a... Isso?
- isso mesmo... - sorrio para ela...
- Ester, me faz um favor? Procure Storm e de maçãs a ele? Por favor...
- ta bom Nath, cuida da Elsa ta? - da um beijo e um abraço em Nath e um beijinho em minha testa e sai da enfermaria...
- que peça rara heim...
- sim.. Ela passou muita coisa, e para piorar tem déficit de atenção e dislexia. Alguns de nós tem um ou outro, mas a Ester tem os dois... Por isso tem dificuldade de falar algumas coisas... Além de ter um probleminha na lingua.. Mas ela é uma garotinha muito doce - diz Nathaly sorrindo carinhosamente, dava pra ver que ela tinha um amor muito grande pelo mini furacão.
- percebi... E.. Obrigada pela ajuda... - sorrio meio sem jeito.
- ah, não se preocupe, é minha obrigação ajudar, alem disso eu amo o que faço.. - diz animadamente.
Então ela pede para eu ficar um pouco ali para descansar, e como não adiantava discutir com ela, concordei e fiquei ali com ela, conversamos muito e durante boa parte do dia. Nos distraímos tanto que quando fomos reparar, já havia anoitecido. Ela quase surtou, foi comigo ao refeitório porque eu "precisava recuperar as energias, e de muita vitamina" e após comermos, ela me acompanhou até meu chalé, onde tomei um banho e cai na cama, adormecendo quase imediatamente.

A caçadoraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora