"Essa alegria é minha fala, que declara a revolução, revolução; Dessa arte que arde, de um povo que invade, essas ruas de clave e sol, e de multidão..." (Música de Rua, Daniela Mercury).
...
Adriano ficou paralisado, sem acreditar no que escutara.
- Topa ou não? - reagi antes que me arrependesse da ideia.
- Aonde quer ir? - ele não escondia a surpresa.
- Uma lanchonete, talvez... Sei lá - dei de ombros.
- Tudo bem, me passa o endereço.
- Se estiver de carro, basta seguir o meu. Onde estacionou?
- Eu não dirijo - balbuciou com timidez.
- Então te dou uma carona, ué!
- Não precisa - parecia temer um novo confronto - Vou chamar um táxi.
- Não seja idiota. Se quisesse fazer alguma coisa contra você, já teria feito - retruquei.
O visitante ponderou alguns segundos e logo consentiu com a cabeça. Pedi um instante para salvar o trabalho realizado e desligar o computador. Ele permaneceu o tempo todo acuado ao lado da porta. Findado o processo, seguimos em silêncio pelo corredor, e avisei a Rebeca que já estava de saída.
Quando o elevador chegou, receou mais uma vez antes de entrar. Comecei a ficar impaciente:
- Quanto mais você pensa, mais demoramos em resolver o assunto. E aí?
Titubeante, dividiu aquele cubículo mínimo comigo, ainda taciturno e cheio de incertezas. Por um breve momento, me senti um monstro por ter colocado tanto medo em alguém. Talvez ele não estivesse preparado para escutar o que ia contar. Ao chegar à garagem, perguntei se queria ficar no banco traseiro, dada a preocupação. Num ímpeto de coragem, porém, abriu a porta da frente, como se quisesse provar que era digno de confiança.
Durante o trajeto, não sabia exatamente como interagir, estava mais atento ao lugar aonde iríamos. Lembrei-me de uma antiga cafeteria próxima de casa, com um ambiente aconchegante e intimista. Os espaços mais reservados seriam ideais para o tipo de conteúdo a ser discutido.
Assim que chegamos, percebi uma movimentação maior, talvez pelo horário. Pedi uma mesa para dois, e o mais afastado possível. A atendente prontamente nos direcionou, sem qualquer questionamento. Após nos acomodar, entregou o cardápio e disse que retornaria logo mais para anotar os pedidos. Olhei ligeiramente e percebi que ele examinava o ambiente, curioso com o local.
- O que vai querer? - chamei sua atenção.
- Não sei - voltou-se novamente ao menu - Acho que nada.
- Dificilmente teremos uma conversa rápida, por isso preferi sair da empresa. Melhor se abastecer.
Adriano não parecia interessado no que iria comer e provavelmente desejava ir direto ao ponto. A verdade é que aqueles minutos extras eram o artifício perfeito para maturar a maneira como discursaria sobre os últimos eventos. Pouco tempo depois a garçonete voltou, como prometido:
- E então meninos?
- Uma quiche de tomate seco e um cappuccino grande - anunciei.
- Certo, e você? - apontou com a caneta para o outro componente.
- O mesmo... - fechou o cardápio e o entregou em suas mãos.
- Tudo bem - ela deu um sorriso cúmplice, como se estivesse presenciando algum tipo de encontro - Volto já!
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Amor de Carnaval não Vinga
RomanceFazer justiça ou tramar a melhor das vinganças? Esperar sentado ou agir com as próprias mãos? Moral e impulsividade lutam entre si na mente de Augusto, um jovem e bem-sucedido empresário que percebe que o "incidente" do último carnaval pode leva-lo...