Estávamos deitados, escolhidos no sofá, como gostávamos, e havíamos nos acostumado a ficar. Eu, de costas para o mesmo, e Jas virada para mim, me deixando abraçá-la em sua cintura e tendo seu rosto próximo ao meu. Ao alcance de meus beijos.
- Eu estava pensando... - Falei, fazendo desenhos abstratos em suas costas, acabando por levantar sua blusa um tanto, no processo. - Você poderia vir comigo, qualquer dia desses, num almoço ou jantar com minha família...
Quer dizer, eu já vinha pensando nisso, há algum tempo. Antes mesmo de ter começado a namorá-la. Achava que seria uma boa, minha mãe conhecê-la. Apesar de não ser uma figura, exatamente, fácil, minha mãe conseguia ser bem melhor (mesmo) do que meu pai. Na verdade, não tinha como comparar os dois. E, bem, acho que ela poderia gostar de Jasmine. E eu esperava muito que sim.
Já tinha conversado com Oliver sobre isso e ele disse que achava que tudo bem. E que nossa mãe tinha mudado bastante, desde então. Logo, meus pensamentos sobre fazer com que Jas e ela se conhecessem se tornaram frequentes.
Com Felícia houve, sim, certa relutância da parte de minha mãe, e um empinar de nariz irritante. Mas logo ela se acostumou e passou a gostar da namorada do meu irmão; a minha era incrível, portanto com ela não seria diferente. Quer dizer, talvez sem toda a chateação que houve com Felícia.
- Não precisa ser logo. Mas também não precisa ser nunca. - Sorri. - Em breve...?
- Ah... Tudo bem. - Ela disse. - Vou adorar.
Assenti, feliz que ela tenha aceitado.
- Como anda as coisas com ela?
- Hum, tudo bem. - Eu disse. - Ela não está mais tão cabisbaixa e a quimioterapia tem ocorrido tudo bem, como o médico disse que seria. Tem grandes chances, agora, para que a cirurgia seja feita.
- Isso é maravilhoso, Ty! - Ela disse, sorrindo. - Daqui a pouco ela está super bem e tudo isso só mostrará o quanto ela é forte.
- Sim. - Sorri.
- E as coisas com seu pai?
Eu suspirei.
- Na mesma. - Eu disse. - Nada de especial, como sempre. Meu pai é meu pai.
Dei de ombros. Então me veio algo na cabeça.
- Você fala pouco sobre sua família. - Joguei a observação por saber que Jasmine gostava pouco de falar de si mesma. O que chegava a ser engraçado, até.
Ela soltou uma risadinha preguiçosa.
- É que, como eu sempre digo, não tem muito o que falar.
- Você pensa em voltar no Brasil? - Perguntei. Como uma forma, tanto de me manter firme, e tanto por curiosidade mesmo. - Quer dizer, talvez visitar ainda esse ano ou voltar a morar lá...
Ela não respondeu de imediato, parecendo pensar no assunto.
- Quero visitar minha família, sim. Mas ainda não decidi sobre o assunto. - Ela disse. - Queria passar as festas de final de ano com eles, mas acho que esse ano não vai ser possível.
Eu assenti.
- Você fala muito com eles?
- Todo dia, praticamente. - Soltou uma risada. - Eles não me deixam em paz. Eu não sei como me deixaram vir pra cá.
Eu ri, imaginando Jas com sua família. Não sei porque, mas a imagem que vinha na mente, era de uma família unida, daquelas de filme mesmo. Bem clichê. Mas era isso que Jasmine passava. União, segurança, lar...
Ou talvez fosse o que eu sentia sobre ela.
Era como se ela fosse meu lar...?
- Eles sabem que você queria muito e que era uma oportunidade única.
Ela assentiu. Se aproximou de meu pescoço, e beijou ali, me fazendo soltar uma risada, por sentir cócegas.
- E sobre morar lá?
- Hum... - Resmungou. - Eu sinto saudades de lá, sabe? Da minha família... Um dia eu vou pensar sobre isso melhor, é claro. Mas não agora. Ou em breve.
Não respondi, pensando a respeito. Já imaginava que fosse essa a minha resposta. Porque, de tudo que eu sabia sobre minha namorada, era que, por mais que fosse seu sonho estar aqui, em Londres, também era muito apegada a sua família. Mesmo que não falasse tanto assim sobre eles, qualquer um poderia perceber o carinho que ela dava a cada palavra que se referia à eles.
- Aí, você me leva contigo. - Brinquei.
- Levo. - Respondeu, sorrindo.
***
É claro que a situação me deixava nervosa. Se eu não estivesse, não seria eu. E eu odiava o fato de que Tyler se afetava com isso. Era algo um tanto difícil de explicar, essa maneira quase tão exata de como ele me conhecia. Eu nem precisava dizer algo, que ele já tinha noção da coisa. Confesso que me deixava até um pouco irritada, às vezes. Não era assim tão necessário que ele conhecesse todos os meus trejeitos. Pelo menos não nesses momentos que eu queria ao menos disfarçar o meu estado.
Ele riu. Pareceu até relaxar um pouco.
- Bem... Eu devo pedir desculpa por isso...? - Me olhou, inspecionando meu rosto. - Porque eu acho bastante legal o quanto te conheço. Me faz sentir bem, admito.
Revirei os olhos, mas soltei um sorriso.
Estávamos em seu carro. Ele dirigia até a casa de seus pais, onde aconteceria um jantar.
- Argh! Você não perde uma, Tyler. Acho incrível. - Ele me deu mais um de seus enormes sorrisos. - Está bem, é ótimo que você me conheça, sim. Só estou... Você sabe.
- Eu sei... E, bom, na verdade, queria dizer que você não precisa ficar assim, mas confesso que também estou nervoso.
- Hah. Você não está ajudando.
- Não... Mas é que, sabe, eu nunca fiz isso... Apresentar namorada pros meus pais? Isso era trabalho do meu irmão.
Oh, meu deus. Que ótimo. Sou a primeira namorada oficial de Tyler, maravilha. Agora todas as expectativas vão estar em mim e tudo que eu consigo pensar, é claro, que vão se decepcionar. Óbvio que estou pensando nisso! Sou realista (ou mesmo pessimista). Além disso, a família de Tyler já me deu motivos pra pensar mil coisas. Aliás, Noel fez questão de me trazer o histórico e apontar cada causa a ser colocada na minha cabeça. Colocada não, revivida e piorada na minha cabeça, fazendo tudo virar um filme de terror feito exclusivamente para me assustar.
- Tá. - Comecei. - Me diga, novamente, quem vai estar lá.
Ele suspirou.
- Hm, além de meus pais, meu irmão vai estar lá com Felícia e...
- Felícia! - Interrompi meu namorado, respirando um pouco mais aliviada. - Vou ficar colada nela a noite toda!
Tyler me olhou, franzindo a testa.
- Pensei que fosse ficar colada em mim... Sabe? Seu namorado... Que vai apresentá-la para seus pais...
- Você realmente quer me lembrar disso, não? Estou tentando esquecer por um segundo a tragédia que vai ser.
- Eu esperava que você não esquecesse. Mas tudo bem. - Deu de ombros. - Amor, escuta, não pensa besteira. Vai dar tudo certo. Claro que vai ser um pouco desconfortável, mas logo vai passar. Não vai ser nada demais, prometo. E se você sentir que está mesmo nada confortável, a gente se manda de lá sem problemas, ok? Eu só preciso que você seja apresentada para meus pais. E que eles vejam que estou ótimo com você e todas essas coisas.
- Eu não sei... É que quando eu penso em você conhecendo meus pais, vejo tudo sendo tão mais fácil. Você entende?
- Completamente. - Ele disse. - Não posso mentir que já me veio isso na cabeça também. Talvez seja influência sua. - Deu um soquinho na minha perna e me ofereceu um sorriso de canto.
Não poderia dizer que era porque meus pais pareciam menos assustadores do que os dele, mas acabei pensando. E não fora por maldade.
Quando, enfim, chegamos, minhas mãos ficaram um pouco soadas. Porém, Tyler veio até mim, quando saímos do carro, e me beijou no rosto, com aquele seu sorriso. Colocou sua mão no meio de minhas costas e me guiou até a porta da casa de seus pais. Que, inclusive, era um casarão. Daqueles bem divinos. A gente tinha passado por portões enormes, quando ainda estávamos no carro, e logo um moço bem arrumadinho veio cumprimentar nós dois e abriu a porta para nós. Ao entramos, eu só poderia dizer que a casa era daquelas que vemos em filmes (a começar pelo jardim lá fora), e que a sala de estar, e provavelmente o restante da casa, era toda mobiliada luxuosamente. Sem dúvidas meu namorado vinha de uma família rica. Muito rica.
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Yesterdays
Romance"Para fugir do aglomerado de pessoas da faculdade, Jasmine Allen sempre está com os fones nos ouvidos, a menos que esteja acompanhada dos amigos ou durante as aulas. Essa razão, somada ao fato de ela não ser nada social, teve certa contribuição para...
