Capítulo 02

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Depois de algum tempo, Tyler começou a frequentar o nosso apartamento e se juntar a nós na faculdade. Ele realmente era um cara legal e tanto eu, quanto Samanta estávamos o adorando. Will andava meio misterioso desde o dia em que ele e Sam viram Noel no nosso apartamento, mas eu não acho que seja por isso, na verdade. Quer dizer, ele e Tyler pareciam super bem e até acho que andavam juntos demais!
Cooper estava escondendo algo, isso era fato. Havia dias que ele saia e quando o questionávamos ocasionalmente sobre isso, ele dava uma desculpa qualquer ou fugia do assunto. Não o pressionávamos, é claro. Quando ele quiser contar (e se quiser), contaria e pronto.
Kendall me evitava o máximo que podia e, de certa forma, isso me incomodava. Não queria que as coisas terminassem dessa maneira...
Desde o dia que Kendall e Tyler estiveram aqui em casa e que eu e o último fizemos aquela "brincadeira" de quatro perguntas, tanto não respondi a pergunta dele, quanto não fiz as perguntas a ele. Não porque tinha esquecido, mas porque esperava para fazer perguntas bem elaboradas, diferente do que ele fez.
Estava terminando de me vestir, quando ouço Samanta chegar em casa. Ela havia ido ao supermercado logo que saiu da faculdade e eu não havia ido por motivos de: trabalho da faculdade para fazer.
Will havia sumido. De novo.
Sai do quarto e me deparo com Tyler ajudando minha amiga a guardar as compras. Quando me viram, riram para mim.
– Noel por aqui... – eu disse indo ajudá-los. – Foi ao mercado também?
– Não, não. Eu estava vindo para cá e...

– Já conheço essa história – o interrompi. Ele riu. – Noah não tinha ido com você? – franzi a testa, olhando para Samanta.

– Sim, mas teve que ir até sua mãe, então só me deixou na porta do prédio e foi embora. – deu uma pausa para comer algo que eu não consegui identificar. – Estava quase te ligando quando o salvador da pátria apareceu.
– Agora mudando de assunto: vocês não acham que William anda misterioso? – perguntei. Percebi Tyler coçando a cabeça, como se estivesse ficado inquieto com minha pergunta. – O que você sabe, Noel? – cruzei os braços.
Ele franziu a testa.
– Eu? Eu não sei de nada, Jas!
– Ah, sabe, sim!
– Eu não sei!
– Percebi sua inquietação! – me aproximei dele. – Anda, desembucha!
– Meu Deus, eu tô falando a verdade!
– O que houve com o "quando Will quiser contar, vai contar e pronto", Jas? – disse Sam. Virei-me para ela.
– Tyler não é Will! – eu disse. – E se aquele William Cooper contou para ele e não contou para mim... Ah, William!
– Aí você acha que, se eu soubesse de algo, iria falar, sendo que você iria surtar com ele por ele não ter te contado?!
– Ahaaaa!
– Não! – ele disse. – Eu falei hipoteticamente!
– É, Noel, você sabe. – disse Sam, calmamente.
Assenti loucamente.
– Sabe!
– Ai, meu Deus! – ele suspirou. – Estou ferrado!
Então ele contou. Aquele William Cooper, que dorme no MEU sofá, teve a cara de pau de contar um segredo para um estranho e não para suas amigas de bom coração, que lhe deram abrigo e comida! Como ele pôde? Mas tudo bem, deixa quieto. O fato agora é que Will está saindo com um garoto e não me disse. Eu que corri para contá-lo que estava "saindo" com Kendall. Enfim. O tal garoto era o carinha que havia o chamado no estacionamento da Metropolitan University, certa vez. Nem sabia o nome do garoto.
Tyler nos fez jurar, principalmente a mim, dizendo que Will só disse por que ele tinha visto os dois num amasso (livre) onde as pessoas costumam fazer esse tipo de coisa na faculdade. Um lugar escondido, se quer saber. O que me fez perguntar o que Tyler estaria fazendo por ali. Ficando com alguém, talvez?
Eu meio que deixei claro que nem aquele flagra iria diminuir a injustiça que eu estava sentindo.
– Isso tem outro nome: ciúmes. – provocou Sam.
– Eu com ciúmes daquele... Daquele... Cu?! – eu sei que estava, mas foda-se. – Me poupe.
Sam olhou para Tyler, que riu.
– Você não ri, não, Noel! – ele levantou os braços em sinal de rendição, ainda com um sorriso no rosto. – Eu te expulso da minha casa, seu estranho!
Samanta revirou os olhos, divertidamente.
– Eu, estranho? – ele riu. – Pensei que já fosse até de casa...
– Ela vai fazer drama até cansar, vai ver. – Sam disse. – Bom, obrigadão pela ajuda! Agora preciso de um banho. Ah, quando eu terminar vou ver um filme, quer assistir?
– Se tiver pipoca e o filme for bom... – Sam riu, assentindo e seguiu para tomar banho.
Fiquei calada para não dizer algo idiota. Sabia que eu podia ser infantil quando me dava na telha, então, não. Comecei a olhar para minhas unhas e só então me ocorreu que tinha coisas a fazer. Ou melhor, terminar.
Olhei para Noel e fiquei um pouco sem graça quando meus olhos encontraram os seus, que já me olhavam. Abaixei a cabeça, mas depois olhei para ele novamente e disse:
– Tenho que terminar um trabalho... – ele assentiu. – É... Então, nos falamos depois.
Fiquei decidindo se ia até ele e me despedia melhor, sei lá, ou se ia logo para o meu quarto. Levaram segundos até eu notar que Tyler estava na minha frente e me puxava levemente pelos braços, para depositar um beijo em minha testa, suavemente. Fechei os olhos por reflexo, sentindo-o se afastar em seguida. Sorri e fui para o meu quarto.

Quando sai da Metropolitan University vi Kendall sentado, sozinho, perto da entrada. Eu teria que passar por ele para ir embora. Não iria com os outros para casa, iria de ônibus.
Eu não queria passar por ele sem falar nada e fingir que não o vi. Era uma coisa totalmente ridícula e eu odiava aquilo, mesmo sabendo que não tinha muito a se fazer. Porém, nem olhar para mim Kendall queria. Suspirei e dei de ombros, caminhando normalmente.
Parei, quando cheguei a certa distancia dele, que não me olhava e não parecia me notar. Estava com fones de ouvido e olhava para um livro em suas mãos.
– Oi – falei, mesmo sabendo que talvez ele não me ouvisse. Porém, ele ergueu seu olhar do livro até mim, lentamente. Tirou os fones. – Tudo bem?
– Tudo ótimo! – sorriu, irônico.
Eu sabia que não poderia dizer um "que bom" porque estaria entrando na conversa irônica que ele escolheu e eu não queria.
– Está esperando eu perguntar o mesmo para ti? – contive um suspiro e apenas neguei com a cabeça. – Okay, então eu vou voltar para a minha leitura, se não se importa – continuou me olhando cinicamente.
Dessa vez não contive o suspiro e recomecei a andar. Eu sabia o quê ele estava fazendo e se ele achava que era a melhor maneira de lidar com a situação, eu não o impediria, mas não achava certo.
Quando eu estava perto do ponto de ônibus, meu celular começou a tocar e eu quase caio para trás (literalmente, porque pisei em falso), quando vi o nome na tela.
Antes mesmo de eu falar alguma coisa, a pessoa já foi dizendo:
– Sei que você não quer que tudo fique ruim entre a gente, mas eu não vou fingir que nada aconteceu. E além do mais, é difícil ter que aceitar que você não me quis para ficar com Tyler Noel. E não fale nada, porque eu o vi naquele dia e, aliás, todos podem vê-lo junto de você! Não te julgo, mas não entendo. E não me peça pra ser seu amigo. Eu não quero isso e não ache que eu só quis saber de você, porque você não me quis mais. Eu só fui covarde de não ter dito tudo antes. E, por favor, me deixe em paz! Eu não quero te tratar mal! Não venha até mim, mesmo que se eu estiver na sua frente! – e desligou.
Kendall falou tudo tão rápido, que sempre que eu queria dizer algo, ele me cortava. Na verdade, em duas tentativas eu desisti de falar, pensando que chegaria a minha vez. Foi tudo tão rápido, que mesmo depois de perceber que ele havia desligado, continuei com o celular no ouvido, com o rosto sem expressão. Talvez tenha sido por isso que um cara ao meu lado perguntou se estava tudo bem e eu apenas assenti, colocando o celular no bolso.
Logo depois, o ônibus chegou e, sem que eu notasse, já estava em casa encontrando Samanta com Will, almoçando. Os dois notaram a minha cara e também perguntaram se eu estava bem. Sentei no sofá e revirei os olhos, percebendo que tudo era tão idiota...
Então contei o que aconteceu. Contei até de quando chamei Kendall até minha casa – o que fez os dois falar algo como "eu sabia que estava escondendo algo" – e eles ficaram tão surpresas quanto eu.
– Baby, o seu mel é realmente muito bom, hein – disse Will, displicentemente.
– Eu nem sei o que dizer, Jas – disse Sam.
– Mas eu sei, amor, deixa como está – disse Will. – Dê o tempo dele e aí, quem sabe, ele mesmo não vem falar com você?
– É... Mas não acho que ele venha falar comigo – eu disse baixo, como se estivesse falando apenas para mim mesma. – Ele pediu pra eu não falar com ele, deixá-lo em paz e tal...
– Estou surpresa com essa do Maddox, nunca imaginei – comentou Sam. – E ele próprio se admitiu covarde, nossa...
– Sim. Estou surpreso com isso também – disse Will. – Muito surpreso.
– Bom, se ele tivesse me dito tudo antes, talvez não fosse dessa maneira.
– Jas, sinceramente? – perguntou Sam. – Acho que você merece alguém melhor. Quer dizer, sinto muito, mas Kendall nunca se mostrou tão...
– Concordo – Will disse, assentindo com a cabeça.
Fiquei um tempo em silêncio, pensando um pouco e comecei a lembrar de certas coisas.
– Will... Você pode me dar o número Tyler? – ele ergueu uma sobrancelha.

– E aí ele desligou? – perguntou Tyler, e eu assenti.
Eu havia ligado para ele, o que o deixou surpreso por ser a primeira vez, e pedi que me encontrasse num restaurante-bar que havia perto do nosso prédio (além disso, eu ainda não tinha almoçado, por conta da faculdade).
Tyler aceitou me encontrar e nem ao menos perguntou o motivo quando o chamei até ali. Ouvi certas reclamações de Sam e Will porque eu iria sair para conversar com ele. Senti-me vingada sobre Will, mas expliquei porque optei por conversar com Tyler.
Nosso pedido acabara de chegar, me impedindo de dizer o que eu queria, então apenas assenti.
– Obrigada – eu disse ao garçom, que riu e se retirou.
– Sabe, é curioso essa coisa toda entre vocês dois – ele disse, tomando um pouco de seu refrigerante. – Quer dizer, eu estou surpreso. Não sabia que caras como Kendall pudessem gostar de alguém – eu revirei os olhos.
– Quer, por favor, parar de falar como se eu estivesse entendendo? – ele assentiu. – Afinal, o que há entre vocês?
– Hmm... – estava mastigando seu frango. – Jas, você que criou isso na sua cabeça. – deu uma risadinha.
– Como é?
– É sério! Eu nunca disse que havia algo entre mim e ele – ele disse, calmamente. – Kendall não é o tipo de cara que eu gosto e posso dizer que o conheço, relativamente.
– Foram amigos? – ele negou com a cabeça.
– Mas temos amigos em comum...
– Ele tá pensando que eu e você temos algo – eu disse, lembrando-me do que ele dissera. – O que não tem nada a ver.
Tyler me olhou por uns segundos a mais e disse:
– Ele deve tá pensando que eu fiz isso para atingi-lo.
– E você ainda diz que não há...
– Não há, Jas – quando ele falava tão calmamente e usava meu apelido, eu sentia um arrepio particular. – Acredite. Nós apenas não nos damos bem ou fazemos questão disso.
– Certo, mas isso não é motivo para ele pensar que você está "comigo" – fiz aspas com os dedos. – Para atingi-lo. Sinto muito, mas eu ainda não acredito que não há nada entre vocês...
– Bom, eu não considero as várias discussões que tivemos, porque foram idiotas demais – ele disse, despreocupado. – Sabe, todas por motivos irrelevantes que só me fizeram não me aproximar dele, nada mais. Agora, se ele acha que isso é motivo para eu querer causar algo nele...
– Tá, mas eu não tenho nada a ver com isso de vocês dois, pelo amor de Deus.
– É – ele confirmou. – Mas, cara, isso nunca foi o motivo pelo qual a gente se tornou amigos.
– Eu até queria conversar com ele, mas o que vou dizer? E ele pediu para eu deixá-lo em paz...
– Acho que você tem que fazer o que ele pediu, sabe? – deu uma pausa. – Olha, pelo que sei do Kendall, talvez você seja a primeira garota que ele gostou de verdade. Por mais que eu não goste da ideia, acho que ele realmente gosta de você.
– Eu me sinto mal, Ty – eu disse, suspirando. – Queria gostar dele, mas...
Tyler não respondeu. Por algum motivo abriu um sorrisinho e só o tirou quando eu o olhei com o olhar interrogativo.
– Que foi?
– Ah, nada... Deixa – ele riu, timidamente. Relaxei minha expressão e dei de ombros.
Terminamos nosso almoço sem falar muito, apenas fazendo comentários sobre coisas aleatórias.
Finalmente saímos do restaurante-bar e começamos a caminhar devagar, conversando sobre bandas e filmes. Era engraçado porque Tyler tinha gostos diferentes do meu, mas nos dávamos bem, conversando sobre esses assuntos.
– Odeio filmes de heróis! – fez careta. – Argh, acho muito chato!
– Fala sério, Tyler! – eu ri. – Chato é você! Eu adoro, mas não tanto quanto meu pai e minha irmã...
– Nossa, não! É tão entediante. Nada contra você gostar, mas eu não assisto de jeito nenhum!
– Você é chato – revirei os olhos para ele, brincando.
– Tá bom – ele riu. – Vai, me conta qual é seu herói favorito.
– Homem-Aranha! – abri o maior sorriso e ele riu.
– Ah... – lancei um olhar como quem dizia para ele não dizer nada. – Certo, menina. Não tenho nada a dizer.
– Melhor mesmo – eu ri.
Ficamos em silêncio novamente e logo pude ver, ao longe, o prédio do meu apartamento.
– E você, do que gosta se não os super-heróis?
– Várias coisas – ele disse, colocando as mãos no bolso da frente de suas calças. – Gosto de assistir filmes, tenho coleções desde criança. Não tenho um gênero especifico, gosto de vários, até filmes antigos...
– Que legal! – eu disse. – Quando morava no Brasil, eu ia muito ao cinema. Principalmente com minhas irmãs.
– Eu amo cinema – ele disse. – Muito. Sempre estou indo ao cinema quando posso.
– Isso é realmente algo legal! – ele abriu um sorriso de canto, assentindo. – Eu estou me dando conta de que sei muito pouco sobre você. – ele me olhou, mas não disse nada, voltando a olhar para o chão.
Acabamos de chegar à frente do meu prédio. Paramos e ficamos nos olhando, calados.
– Então... – comecei.
– O que você quer saber? – ele perguntou.
– Hã... – comecei a pensar. – Sabe que eu tenho quatro perguntas pra te fazer? – ele riu, lembrando.
– Tinha até esquecido.
– Tudo bem. Vou fazer minhas perguntas – ele soltou um "ok", timidamente. – Você pode, por favor, fazer um resumo da sua vida?
Ele riu.
– Ah – começou. – Meu Deus, não sei como fazer isso...
– Comece pelo começo. – eu ri.
– Certo. Eu, quando menor, costumava morar com os meus pais e meu irmão mais velho, Oliver. Meu pai é um cara arrogante e metido. Minha mãe é dondoca, mas muito melhor que meu pai. Meu irmão... – riu. – Esse é simplesmente meu melhor amigo. Oliver, não se dá muito bem com nosso pai, foi por isso que saiu de casa quando eu tinha 16 anos. O motivo foi porque meu pai queria que ele trabalhasse na sua empresa, mas meu irmão definitivamente não queria aquilo pra vida dele. Os dois brigaram feio por causa disso, então meu irmão saiu de casa. Minha mãe ficou arrasada, queria muito fazê-lo mudar de ideia, mas desde o momento que ele me contou, antes mesmo da briga, eu sabia que ele iria. Quando aconteceu, eu realmente fiquei puto. Mudei um pouco por causa disso. Tornei-me um pouco... Rebelde – riu, sem graça. – Fiquei com raiva porque ele iria me deixar naquela casa de loucos e disse que não poderia me levar, mas é claro que eu entendia o motivo, não é? E meus pais não me deixariam ir, até porque eu era menor de idade.
O olhava um pouco sem graça, por fazê-lo me contar aquelas coisas (talvez) sem realmente querer.
– Tyler, você não precisa continuar, se não quiser... – ele negou com a cabeça.
– Eu disse que me tornei rebelde, né? – riu. – Quando meus pais viajaram, dei a maior festa na minha casa. Cara, foi um desastre... Meus pais chegaram antes do previsto e souberam da festa pelos vizinhos – dessa vez ele gargalhou. – Meu pai brigou muito comigo e ameaçou tirar minha mesada, não me dar um carro e tudo mais. Mas eu realmente não ligava. Então ele começou a culpar Oliver e eu não gostei nenhum pouco.
– Mas como ficou, então?
– Minha mãe me defendeu, apesar de não ter gostado – ele disse. – Oliver foi lá na casa dos meus pais depois que soube e me deu uma leve bronca, mas depois riu comigo da situação. – eu ri.
– Você e seu irmão são realmente unidos, não é? – ele assentiu, com um sorriso sincero.
– Sim, somos – ele disse. – O Oliver saiu de casa para abrir seu próprio restaurante. Ele é apaixonado por gastronomia, então assim que saiu de casa, começou a investir nisso. Mora com a namorada e ela o ajuda no restaurante.
– Muito legal ele ter feito isso – eu disse. – E qual o nome do restaurante?
– Não ria – mas ele próprio já ria. – Mas o nome é Beautiful War! – eu franzi a testa e abri um sorriso.
– Beautiful War! – eu ri .– Bom, eu gostei. E acho que tem tudo a ver, né? – ele assentiu.
– Ele acha que sim – riu.
– Me lembrou duma música do Kings Of Leon – ele franziu a testa. – O quê? Não conhece? 

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