Todd esperou até chegar em casa e controlou as lágrimas para providenciar a cremação de Dempsey. Deixou um recado na empresa recomendada pelo hospital, pedindo que o assunto fosse tratado com discrição. A funerária pegaria o corpo de Dempsey no necrotério do hospital, faria a cremação e recolheria as cinzas, garantindo que não haveria mistura de "crecinzas" — como eram descritas — e que as cinzas entregues ao dono seriam realmente as do cachorro. Em outras palavras, não iriam juntar canários, papagaios, ratos brancos, cães e porquinhos-da-índia em uma grande fogueira, dividindo as "crecinzas" (a palavra revoltava-o) no que pareciam ser os volumes apropriados. Ligou também para a casa de seu contador e mandou que providenciasse um donativo de dez mil dólares ao hospital, sendo a única exigência do doador que 500 dólares do dinheiro fossem gastos em um banco mais confortável para as pessoas que ali ficassem à espera.
Dormiu muito bem, com ajuda de vários Ambien e um uísque reforçado, até 4h30min da manhã, quando acordou e sentiu Dempsey movendo-se ao pé da cama. O tranquilizante havia lhe tornado confusos os processos mentais.
Precisou de alguns segundos sentado na cama e de pôr a colcha no chão naquele lugar para recuperar a plena consciência. Dempsey não estava ali.
Ainda assim, sentiu-lhe a presença e juraria isso sobre um monte de Bíblias, levantando-se e dando várias voltas em torno do mesmo lugar, ajeitando a caminha até torná-la confortável.
Descansou a cabeça no travesseiro e voltou a dormir, embora não tivesse mais um sono reparador. Manteve-se semi-acordado, olhando para a escuridão ao pé da cama, perguntando-se se Dempsey era nesse momento um fantaminha c se continuaria a lhe assombrar os tornozelos até ter o bom senso de continuar seu caminho para o céu.
Dormiu até às 10h, ocasião em que Marco entrou trazendo o telefone e na linha uma mulher chamada Rosalie, do Pet Cremation Service. Ela foi gentil à sua maneira prática. Sem a menor dúvida, ela ouvira pessoas próximas da histeria no outro lado da linha, de modo que uma pequena distância profissional era necessária. Já havia entrado em contato com o hospital naquela manhã, disse, e sabido que o animal tinha consigo uma coleira e uma colcha. Queria que fossem devolvidas ou cremadas também com o bichinho?
— Eram dele — respondeu Todd —, de modo que devem ir com ele.
— Muito bem — respondeu Rosalie. — Neste caso, a única questão que resta é a da urna. Temos três variedades...
— A melhor que tiverem.
— Esta seria nosso Estilo Grego em Bronze.
— Essa parece satisfatória.
— E agora tudo de que precisamos é o número de seu cartão de crédito.
— Vou transferi-la para meu assistente. Ele pode resolver isso.
— Apenas mais uma pergunta.
— Pois não.
— O senhor é... o Todd Pickett?
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O Desfiladeiro do Medo
KorkuO Desfiladeiro do Medo é um livro sem paralelo: uma descrição implacável e irresistível de Hollywood e seus demônios, contada com um estilo cru e o poder narrativo que transformaram os livros e filmes de Clive Barker em fenômenos mundiais. Hollywood...